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domingo, 1 de janeiro de 2017

A CONTRIBUIÇÃO DE MARX PARA A TEORIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

A CONTRIBUIÇÃO DE MARX PARA A TEORIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Texto publicado originalmente na Revista Despierta, volume 03, número 03, 2016.

Nildo Viana – Doutor em Sociologia/UNB e
Militante Autogestionário

Qual é a possível contribuição de Karl Marx para a compreensão e análise dos movimentos sociais? Talvez essa pergunta devesse ser antecedida por outra: Marx oferece alguma contribuição para a análise dos movimentos sociais? Por um lado, Marx é considerado um clássico da sociologia, bem como de outras ciências humanas (ciência política, economia, etc.) e da filosofia, e não poderíamos esquecer sua influência em diversas outras ciências, incluindo as naturais. Como autor clássico e considerado por muitos como atual, então certamente deve ter alguma contribuição para a compreensão dos movimentos sociais. Por outro lado, é tido por alguns como um autor do século 19 (e alguns até querem nos convencer que seria ultrapassado) e os movimentos sociais emergiram sob forma embrionária a partir do final dessa década, quando ele já havia morrido, apenas alguns embriões estavam emergindo.
Sendo assim, as duas questões iniciais continuam válidas. O nosso objetivo é responder estas indagações e para isso faremos o seguinte trajeto analítico: em primeiro lugar, apresentaremos algumas posições de alguns autores a respeito da possível contribuição de Marx para a análise dos movimentos sociais; em segundo lugar, realizaremos um esclarecimento conceitual que, de nossa perspectiva, é fundamental para nos posicionarmos diante dessas questões; em terceiro lugar, apontaremos quais são as contribuições de Marx para uma teoria dos movimentos sociais, que é nossa posição e resultado de nossa análise.
Marx e os Movimentos Sociais na Produção Sociológica
Existem, basicamente, três posições dentro da produção sociológica a respeito da possível contribuição de Marx para a análise dos movimentos sociais: 1) aqueles que consideram que sua contribuição ainda é atual e fundamental ou pelo menos que ele contribui de alguma forma; 2) aqueles que delimitam tal contribuição a um período histórico específico ou apenas ao caso do movimento operário; c) aqueles que negam tal contribuição. Estas duas últimas muitas vezes se confundem e alguns autores passaram de uma posição para outra no decorrer do tempo.
No primeiro caso, temos um conjunto de autores, de diversos países e distintas concepções a respeito dos movimentos sociais que defendem a existência e atualidade de Marx no processo explicativo desse fenômeno social. Vamos lançar mão de alguns poucos casos concretos para demonstrar isso.
Segundo Scherer-Warren, “a contribuição de Marx para a análise dos movimentos sociais de libertação das classes socialmente oprimidas foi uma das mais ricas já realizadas. A abrangência de seus estudos nesse sentido torna difícil a tarefa de selecionar suas contribuições mais significantes” (1989, p. 24). Essa autora afirma que todas as “categorias sociológicas” que ela privilegia na análise dos movimentos sociais estão presentes no pensamento de Marx. Tais “categorias sociológicas” seriam práxis, projeto, ideologia, organização e direção dos movimentos sociais. Isso é coerente com a definição de movimentos sociais apresentado pela autora, pois, em sua concepção, eles seriam “uma ação grupal para transformação (a práxis) voltada para a realização dos mesmos objetivos (o projeto), sob a orientação mais ou menos consciente de princípios valorativos comuns (a ideologia) e sob uma organização diretiva mais ou menos definida (a organização e sua direção)” (SCHERER-WARREN, 1989, p. 21). A autora analisa esses tópicos e busca retomá-los ou relacioná-los com o pensamento de Marx.
Essa posição, no entanto, nos parece muito problemática. Em primeiro lugar, teríamos que concordar com sua definição de movimento social. E seu conceito é demasiadamente amplo e por isso inaceitável, inclusive por poder englobar partidos, classes sociais e diversos outros fenômenos sociais (VIANA, 2016a). O seu campo lexical, no aspecto semântico, é distinto do de Marx em vários pontos, a começar pelo termo “ideologia”, que nesse autor é um sistema de pensamento ilusório (MARX e ENGELS, 1982; MARX e ENGELS, 1979; VIANA, 2010) e para a autora se tornou “princípios valorativos comuns”. A sua forma de elaboração conceitual é bem distinta da que é realizada pelo método dialético (VIANA, 2016a). Em segundo lugar, a sua análise da contribuição de Marx remete ao que este autor aborda no caso do proletariado, a classe revolucionária constituída pelo capitalismo segundo sua concepção. Ela transfere as afirmações de Marx, relativas ao proletariado, para os movimentos sociais, o que é sem sentido e equivocado, pois são fenômenos distintos[1]. Em último lugar, a autora realiza uma interpretação problemática do pensamento de Marx, confundindo-o com o pensamento de Lênin, ao atribuir a ele uma concepção de partido político como elemento de sua teoria da revolução e confusão conceitual (como ocorre com o conceito de classes, por exemplo).
Segundo Maria da Glória Gohn, retomando Scherer-Warren, Marx teria trazido como grande contribuição para a análise dos movimentos sociais o conceito de práxis política. Ela afirma que “em suas análises históricas, especialmente em Luta de classes na França (1850), Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte (1852) e Guerra Civil na França (1871), Marx explorou mais intensamente a questão da práxis política dos movimentos” (GOHN, 2002, p. 177).
Essa autora busca confirmar sua pressuposição de que Marx teria discutido os movimentos sociais a partir de algumas citações do mesmo, que não custa reproduzir:
Assim, além dos distintos movimentos econômicos dos operários, surgem em todos os lugares movimentos políticos, isto é, movimentos de classe, com o objetivo de impor os seus interesses de forma geral, de uma forma que possui força coercitiva-social geral. Se esses movimentos pressupõem certo grau de organização prévia, em compensação eles igualmente significam meios de desenvolver esta organização (MARX apud GOHN, 2002, p. 177).
Gohn não percebe que aqui Marx está abordando o movimento operário, que é um movimento de classe, e não movimentos sociais. Esse equívoco permanece na atribuição de referência aos movimentos sociais em outra citação: “não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Jamais haverá movimento político que não seja ao mesmo tempo social” (MARX apud GOHN, 2002, p. 177-178).
Assim, Gohn toma as referências de Marx sobre movimento operário e movimento de classe como se fossem referências aos movimentos sociais. As análises históricas de Marx, o que é perceptível a começar pelos títulos de suas obras citadas por Gohn, são as lutas de classes, ou seja, movimento de classes e não movimentos sociais. A primeira citação de Marx apresentada por Gohn mostra uma contraposição entre movimento econômico e movimento político que é descontextualizada. A citação completa ajuda a compreender isso:
Mas, por outro lado, todo o movimento em que a classe operária enfrenta como classe as classes dominantes e tenta obrigá-las por meio de uma pressão externa é um movimento político. A tentativa, por exemplo, de impor aos capitalistas isolados uma redução do tempo de trabalho numa só fábrica ou num dado ramo industrial por meio de greves, etc., é um movimento puramente econômico; em contrapartida, o movimento para impor uma lei das oito horas, etc., é um movimento político. E deste modo surge em toda a parte, a partir dos movimentos econômicos isolados dos operários, um movimento político, isto é, um movimento da classe, para impor os seus interesses de uma forma geral, de uma forma que possua força geral, socialmente coercitiva. Se estes movimentos supõem uma certa organização prévia, eles são igualmente, por seu lado, meio do desenvolvimento dessa organização (MARX, 2016, p. 216).
Marx se refere aqui ao movimento operário. Ele distingue entre movimento operário “econômico”, ou seja, isolado, de movimento operário político, isto é, tendo força geral e coercitiva. Neste último caso, temos um movimento de classe, político. Seria impossível aplicar essa reflexão ao caso do movimento negro ou feminino. A segunda citação comete outro equívoco. Marx está se referindo, nesse caso, não especificamente a movimentos sociais e sim a processos sociais. O parágrafo seguinte deixa bem claro isso: “somente numa ordem de coisas em que não existam mais classes e antagonismos de classes as evoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas (MARX, 1989, p. 160). A contraposição que Marx efetiva aqui é entre o social e o político, sendo que o primeiro está presente em todas as sociedades e o segundo é um processo existente nas sociedades de classes. O uso da palavra “movimento” (social ou político) não tem o sentido atribuído por Gohn e sim apenas para mostrar a mudança e que toda mudança política é mudança social.
Um último elemento apontado por Gohn é o da questão da solidariedade, que em Marx é uma questão específica do proletariado (ele precisa romper com a divisão e competição imposta pelo capital e criar sua unidade, associação, solidariedade), que é generalizado para todos os movimentos sociais. Além disso não estar presente no pensamento de Marx, é um equívoco colocar a solidariedade como elemento fundamental para explicar os movimentos sociais.
Uma outra forma de conceber a contribuição de Marx para a análise dos movimentos sociais é a realizada pelos pesquisadores dos movimentos sociais urbanos, movimentos sociais rurais, ou movimentos sociais populares em geral. Estes não extraem citações descontextualizadas e mal compreendidas de Marx para afirmar que ele fez estudos sobre tais movimentos sociais, mas sim extraem da sua obra uma determinada compreensão da sociedade e dos problemas urbanos, rurais, populares, para explicá-los (CASTELLS, 1988; CASTELLS, 1989; LOJKINE, 1981; BORJA, 1975). Nesse caso, se reconhece uma contribuição do pensamento de Marx, mas indireta, com sua teoria do capitalismo, das classes, luta de classes, etc. Castells (1988; 1989), por exemplo, aborda os movimentos sociais urbanos a partir da questão da reprodução da força de trabalho, cujo espaço de realização ocorre na cidade e em relação com a estrutura urbana (transporte, moradia, etc.). Por questão de espaço nos limitaremos a estas abordagens, às quais seria possível acrescentar muitas outras.
Uma outra posição é a daqueles que limitam a contribuição de Marx a um período histórico específico ou ao caso do movimento operário. Para grande parte dos autores do que se convencionou chamar “teoria dos novos movimentos sociais”, o que preferimos denominar abordagem culturalista, as contribuições de Marx se limitam ao passado histórico do capitalismo:
Embora cada qual tenha sua própria teoria da modernidade, [os representantes da abordagem culturalista – NV] compartilham mais ou menos o mesmo argumento central. Ao longo do século XX, uma mudança macroestrutural teria alterado a natureza do capitalismo, cujo centro teria deixado de ser a produção industrial e o trabalho. Uma nova sociedade se vislumbraria, dando lugar também a novos temas e agentes para as mobilizações coletivas (ALONSO, 2009, p. 59).
Essa tese está presente em quase todos os autores que defendem que vivemos numa “sociedade pós-industrial” ou “pós-moderna”. As mudanças sociais teriam restringido a validade do pensamento de Marx ao período anterior e por isso seria necessário novas abordagens para analisar os movimentos sociais. A concepção marxista ortodoxa precisaria ser substituída por uma nova abordagem (ALONSO, 2009; GOHN, 2002). Esse seria o caso de autores como Touraine, Offe, Melucci, Laclau e Mouffe:
Partindo da inadequação do paradigma tradicional marxista, denominado por alguns clássico ou ortodoxo, para a análise dos movimentos sociais que passaram a ocorrer na Europa a partir dos anos 60 deste século, assim como fazendo a crítica aos esquemas utilitaristas e às teorias baseadas na lógica racional e estratégia dos autores (que analisavam os movimentos como negócios, cálculos estratégicos, etc.), Touraine, Offe, Melucci, Laclau e Mouffe, entre outros, partiram para a criação de esquemas interpretativos que enfatizam a cultura, a ideologia, as lutas sociais cotidianas, a solidariedade entre as pessoas de um grupo ou movimento social e o processo de identidade criado (GOHN, 2002, p. 121).
No entanto, alguns destes autores já apontavam para um rompimento com a tese da utilidade da concepção de Marx (e geralmente de tudo que ficou conhecido como “marxismo”) para explicar os movimentos sociais. O problema não seria apenas temporal, mas epistemológico. As correntes pós-estruturalistas apontam para a recusa da totalidade, luta de classes, etc. e assim consideram que nem no que se refere ao século 19 ou especificamente ao movimento operário as teses de Marx foram válidas. Esse é o caso de Laclau (1986) e Touraine a partir dos anos 1990 (GOHN, 2008). A ideologia da sociedade pós-moderna[2] ou pós-industrial acabou gerando uma epistemologia negadora do marxismo. É nesse contexto que a crítica ao pensamento de Marx deixa de ser por causa de inadequação temporal e passa a ser por causa de sua inadequação epistemológica.
Essas análises possuem limites que não poderemos explicitar em sua totalidade e detalhadamente, mas tão-somente fazer algumas rápidas observações críticas, por questão de espaço. A concepção segundo a qual as teses de Marx só eram válidas para o século 19 e/ou para o movimento operário é equivocada. As razões do equívoco serão aprofundadas adiantes quando abordarmos a contribuição de Marx para a análise dos movimentos sociais. No entanto, é preciso adiantar aqui que a teoria elaborada por Marx possui elementos que são expressão da época, do momento histórico, e elementos essenciais da sociedade capitalista, que vão além de sua época. Isso será melhor explicitado adiante, quando trataremos de sua teoria do capitalismo. No caso específico dos movimentos sociais, sendo que eles inexistiam na época da produção do Marx, estavam em anunciando o seu nascimento, obviamente que ele não poderia analisar o inexistente e sua análise do movimento operário e das lutas de classes não são aplicáveis a eles, mas possuem relação com os mesmos e não é possível compreendê-los sem tal análise, como desenvolveremos a seguir.
As diversas abordagens dos “novos movimentos sociais” são problemáticas, pois suas bases teórico-metodológicas são frágeis e mesmo as mais estruturadas são marcadas por problemas insolúveis, tal como uma recusa ou má compreensão da historicidade. Da mesma forma, outro problema é a tese da superação da sociedade “industrial”, “moderna”, “capitalista” por uma outra, coisa que não ocorreu de fato (VIANA, 2009). Seria necessário um grande desdobramento teórico para mostrar o equívoco dessa concepção, mas nos contentamos ao colocar que os autores que tentaram mostrar a alteração de uma sociedade industrial em uma sociedade pós-industrial (ou “pós-moderna”) não provaram absolutamente nada, pois, desde Daniel Bell (1969), passando por Alain Touraine (1970), Claus Offe (1989) até chegar a Toni Negri e Maurizio Lazzarato (2001), o que fizeram foram apenas demonstrar que a sociedade moderna alterou alguns de seus aspectos, como, por exemplo, aumentar o setor de serviços, o trabalho “imaterial”, etc., e não uma criação de uma nova sociedade, que, aliás, seria pós e não teria nome próprio (VIANA, 2009).
Os chamados “novos movimentos sociais” não são tão novos e a ideia de novidade precisaria de uma fundamentação mais ampla. O movimento das mulheres emerge embrionariamente no final do século 19, assim como o movimento estudantil. Outros movimentos vão emergindo e o que surge, efetivamente de novo, a partir do final dos anos 1960, é o movimento ecológico e pacifista. No entanto, todos os movimentos sociais são incluídos entre os “novos”, o que seria um equívoco. Aliás, a própria expressão “novos movimentos sociais” é um equívoco, pois generaliza para todos os movimentos sociais o que ocorre com apenas alguns. Vários autores já criticaram esse postulado (ALONSO, 2009) e Gunder Frank e Fuentes (1989) afirmam, corretamente, que “os ‘novos’ movimentos sociais não são novos, ainda que tenham algumas características novas” (p. 19). Na verdade, emergiram alguns novos movimentos sociais, que são, aliás, pouco abordados pelos representantes da abordagem culturalista, e os que já existiam sofreram algumas mudanças, de acordo com a própria mudança do capitalismo, tal como colocaremos adiante. Nesse sentido, a recusa da contribuição de Marx para a teoria dos movimentos sociais é um retrocesso intelectual e nosso objetivo é, a partir de agora, apresentar as contribuições deste autor.
Esclarecimento Conceitual
Antes de apresentarmos aquilo que consideramos a contribuição de Marx para uma teoria dos movimentos sociais, é necessário realizarmos alguns esclarecimentos conceituais. Para saber se Marx contribui ou não com a análise dos movimentos sociais precisamos, anteriormente, definir o que entendemos por isso. Aqui encontramos um dos problemas mais graves nas abordagens dos movimentos sociais: o problema conceitual. Muitos autores não definem o que entendem por movimentos sociais, mais ainda quando abordam movimentos sociais específicos (negro, feminino, ecológico, estudantil, etc.). Outros apresentam definições idiossincráticas, sem fundamentação e base teórico-metodológica. Essas definições idiossincráticas são, muitas vezes, empíricas, tal como observou Melucci (1989)[3]. As definições empíricas dos movimentos sociais são aquelas que partem de um movimento social, ou pior, uma mera organização ou ramificação de um, e o tomam como modelo para definir movimentos sociais em geral. Outra forma de definição é a modelar, fundamentada numa concepção racionalista criadora de modelos, que realiza generalizações que geralmente nunca se aplica ao conjunto dos movimentos sociais. Esse é o caso da definição de movimentos sociais de Scherer-Warren que apresentamos anteriormente. As definições idiossincráticas podem ser fundadas em casos empíricos ou então na imaginação daquele que faz a definição.
Todas essas formas de definição de movimentos sociais são distintas da concepção marxista, ou seja, da forma dialética de elaboração dos conceitos. A elaboração dialética do conceito parte de uma teoria da realidade e de uma teoria da consciência para elaborar os seus conceitos. O real, na concepção dialética, é o concreto e este é entendido como histórico, total, determinado. Como a célebre frase de Marx, “o concreto é o resultado de suas múltiplas determinações” (MARX, 1983a). Qualquer fenômeno social ou conjunto de fenômenos é histórico, não existiu desde sempre. As classes sociais, o Estado, os movimentos sociais, surgiram num determinado momento histórico, se desenvolve e perecem ou se transformam. Isso não ocorre aleatoriamente ou gratuitamente, é um processo determinado. O Estado aparece com o surgimento das classes sociais e suas lutas, sendo que ele surge para expressar os interesses da classe dominante e amortecer os conflitos de classes para que não haja revolução ou instabilidade que dificulte a reprodução dessa sociedade. Um fenômeno social é uma totalidade inserida noutra totalidade mais ampla que é a sociedade. O Estado é uma totalidade (que fica cada vez mais complexa com o desenvolvimento da humanidade) inserida na totalidade da sociedade em que existe. O mesmo vale para os demais fenômenos sociais. A sociedade, entendida como o “conjunto das relações sociais” (MARX, 1989) é uma totalidade que engloba em si diversas outras totalidades e é englobada por uma totalidade maior (natureza, universo). Um fenômeno social é histórico e isso ocorre também com o Estado e com a sociedade. O Estado surge num determinado momento histórico, assume várias formas com a passagem de uma sociedade de classes para outra, e tende a ser abolido com a superação do capitalismo.  A sociedade surge com a própria humanidade e se deixar de existir será junto com ela, mas assumiu diversas formas no decorrer da história.
A dialética marxista também tem uma teoria da consciência. A consciência dos seres humanos é um produto social e histórico, sendo, igualmente, determinada e uma totalidade. Ela é o ser consciente, ou seja, o indivíduo real, existente na vida real, que desenvolve sua percepção do mundo, através de seu processo histórico de vida. Os indivíduos são seres reais, históricos, falhos, e isso se manifesta na sua consciência. A consciência, assim, pode ser verdadeira ou falsa, pois o saber verdadeiro não depende apensa da capacidade mental dos indivíduos, mas, principalmente, das condições sociais. A divisão social do trabalho, os modos de vida, interesses, etc., derivados dela, constituem limites para a consciência humana que somente uma transformação social radical pode abolir de forma generalizada na humanidade. O desenvolvimento da consciência é uma necessidade humana, mas determinadas relações sociais acabam se tornando obstáculos para isso ocorrer. É por isso que Marx tematizou a questão das ilusões e da ideologia (VIANA, 2013).
Na obra A Ideologia Alemã (MARX e ENGELS, 1982), realizou a crítica da ideologia e mostrou as bases das representações ilusórias (a divisão social do trabalho e as relações sociais limitadas derivadas dela). No entanto, os seres humanos, superando os obstáculos sociais, tem a capacidade de desenvolver uma consciência correta da realidade e superar a consciência ilusória. Isso, para ocorrer, tem que ter bases sociais reais. Se os interesses gerados a partir da divisão social do trabalho e a própria constituição dessa, são obstáculos para uma consciência correta da realidade, então essa só pode surgir a partir daqueles que possuem interesse em desenvolvê-la. Marx encontrou nas classes sociais a base dos interesses, seja em ocultar a verdade ou em revelá-la. A emergência da sociedade moderna gera o proletariado, classe que tem interesse na verdade e necessita dela para sua autolibertação, que significa, simultaneamente, emancipação humana. Nesse caso, ao invés de interesses particularistas, como os da classe dominante e suas classes auxiliares, o proletariado representa os interesses universais e por isso não recusa a totalidade e o torna um de seus pressupostos.
No entanto, o proletariado não desenvolve uma consciência correta da realidade, nem sob a forma de representações cotidianas, nem sob a forma de teoria, pois ele tem esse interesse, mas está submetido à divisão social do trabalho e à hegemonia burguesa, bem como tem menor acesso às informações e condições sociais de reflexão e produção intelectual. Então como emerge essa consciência correta da realidade? Através das lutas de classes, que é quando o proletariado em sua luta se une, se organiza e desenvolve sua consciência[4], e isso ocorre de forma mais profunda e desenvolvida quando inicia um processo revolucionário, pois o início da transformação social radical permite romper com as ilusões, com os interesses imediatos que são obstáculos para o avanço da consciência, com o processo de totalização da transformação. Contudo, as experiências revolucionárias foram derrotadas e todas as revoluções proletárias ficaram inacabadas. A retomada desse processo, no entanto, torna possível a retomada da consciência correta da realidade generalizada no proletariado e todos que o apoiam e que, uma vez realizada a revolução, se generaliza em toda a sociedade.
Antes desse processo ocorrer, no entanto, já existem indivíduos que avançam num sentido de uma consciência correta da realidade, mesmo que poucos, marginalizados, estigmatizados, por não expressarem os interesses dominantes, os interesses particularistas, não estarem seguindo os modismos e ideias hegemônicas. Isso ocorre no interior do proletariado através de alguns indivíduos que avançam no sentido de representações cotidianas verdadeiras ou mesmo representações congruentes[5], especialmente utopias. Isso também ocorre no caso de intelectuais, como o próprio exemplo de Marx, mas também de outros pensadores, como Korsch, Pannekoek, etc. Nesse último caso é que a consciência revolucionária assume a forma de teoria, um saber complexo e amplo que consegue explicitar as relações sociais reais tal como elas são, realizando a “crítica desapiedada do existente”. Esses processos constituem não somente uma consciência correta da realidade presente, mas também aquilo que Ernst Bloch denominou “consciência antecipadora” (BICCA, 1987).
Assim, a emergência do proletariado como classe social e suas lutas são determinações do surgimento da teoria, aqui compreendida como um universo conceitual que expressa e explica a realidade social. A teoria é expressão da realidade sob forma totalizante e os conceitos, tal como colocou Marx (1989), são “expressões da realidade” em seus diversos aspectos.
Se o proletariado desenvolve sua consciência através de sua luta contra a classe capitalista, ou seja, na luta de classes, é dessa luta que os indivíduos de outras classes, incluindo os intelectuais, retiram suas fontes de inspiração e elaboram conceitos e teorias. Essa base social e histórica da elaboração dos conceitos é reforçada pelas necessidades da luta proletária, tal como a compreensão das mutações do aparato estatal, a emergência e significado dos movimentos sociais. A partir do momento em que surge a necessidade de compreensão dos movimentos sociais, surge a necessidade de sua conceituação e explicação. É nesse momento que se torna necessário um conceito e uma teoria dos movimentos sociais.
A elaboração dialética dos conceitos é distinta dos modelos, tipos ideais, etc. O objetivo é expressar a realidade tal como ela é, ou seja, o compromisso com a verdade e não com manipulação, estratagemas políticos, etc., é sua base intelectual. Não se elabora um conceito para servir aos interesses de uma disputa política específica e sim tendo o fim geral da transformação radical e total das relações sociais, a emancipação humana, como objetivo. E esse processo é realizado através da percepção da realidade e necessidade de expressá-la, o que é realizado através do conceito. O conceito, que é um signo, é expressão da realidade, que é o significado. O signo pode ser escolhido no interior de uma certa arbitrariedade ou convencionalidade, mas não pode ser mero capricho individual, idiossincrático. A escolha do signo, que será o conceito, obedece aos processos acima delimitados e busca ser o mais adequado possível à realidade que busca expressar. O significado, por sua vez, é o aspecto da realidade que o conceito busca expressar. Desta forma, na elaboração dialética do conceito se inicia pela necessidade de explicitar um significado e por isso esse processo começa pela distinção de qual aspecto da realidade se busca expressar. O significado é o ser, o aspecto da realidade, que o signo visa expressar e, portanto, é por este que se deve iniciar.
Logo, para que o conceito de movimentos sociais seja elaborado é preciso saber a que conjunto de fenômenos sociais ele se refere. Trata-se de um conjunto de fenômenos que podemos denominar movimento estudantil, movimento negro, movimento feminino, movimento ecológico, entre diversos outros. Uma vez esclarecido qual é o conjunto de fenômenos que são englobados no conceito de movimentos sociais[6], então o passo seguinte é sua conceituação. A melhor definição de movimentos sociais é como “movimentos de grupos sociais” (JENSEN, 2016; VIANA, 2016a). Porém, é preciso compreender que não se trata apenas de palavras e vínculos de palavras com fenômenos sociais, pois um conceito, que é uma unidade de uma teoria, remete a diversos outros conceitos (a começar pelo de grupos sociais)[7]. Essa definição é apenas uma parte do conceito, que precisa outros conceitos para se constituir enquanto tal. Os movimentos sociais são movimentos de grupos sociais quando estes, devido insatisfação com determinada situação social específica, gera um senso de pertencimento, objetivos e mobilização (VIANA, 2016a) e cada um desses elementos necessita explicação e desenvolvimento.
É preciso deixar claro que este conceito de movimentos sociais aponta para sua concreticidade, pois engloba a totalidade do fenômeno, sua historicidade e sua determinidade: os movimentos sociais só surgem quando os grupos sociais se tornam “efetivos” ou “em fusão”, a partir dos outros elementos constitutivos acima delimitados, o que depende de condições sociais externas ao mesmo (a insatisfação social não é do grupo com ele mesmo e sim com sua situação social específica). Isso é apenas parte da questão, pois é necessário analisar as variedades de movimentos sociais, as suas ramificações (tendências, organizações, etc.), entre diversos outros fenômenos correlatos e derivados.
Assim, aqui já mostramos uma contribuição de Marx, que é a elaboração de um conceito de movimentos sociais a partir do método dialético desenvolvido por ele. No entanto, outra contribuição, derivada do método dialético, é a questão da especificidade dos movimentos sociais. Os movimentos sociais não são movimentos de classes sociais e por isso o movimento operário, o movimento camponês, etc., não se incluem nesse conceito. Esse esclarecimento conceitual é fundamental, inclusive para termos uma compreensão mais adequada da contribuição de Marx para a teoria dos movimentos sociais. O ponto fundamental aqui é o que diferencia movimentos sociais e movimentos de classes sociais.
Os movimentos sociais são gerados por grupos sociais e os movimentos de classes, obviamente, por classes sociais. Aqui a diferenciação entre grupos sociais e classes sociais se torna fundamental. Um movimento de classe (como o operário, camponês, etc.) tem como objetivo os interesses de classe, sejam eles interesses imediatos ou fundamentais[8]. As classes sociais são compostas por um conjunto de indivíduos que possui um modo de vida comum, interesses comuns e luta em comum contra outras classes, derivados da divisão social do trabalho, que, por sua vez, é determinada pelas relações de produção (MARX e ENGELS, 1982; VIANA, 2012)[9]. As lutas e os interesses das classes sociais remetem para a totalidade da sociedade, tanto nas relações de produção quanto nas formas sociais (“superestrutura”), pois as classes são relacionais e só existem em suas relações e lutas[10].
Entre os interesses imediatos de todas as classes sociais está a luta em torno do mais-valor. No caso das classes fundamentais, o proletariado luta para diminuir a extração de mais-valor e, quando se torna classe autodeterminada, para a abolir, enquanto que a burguesia luta para a manter e aumentar. Essa luta se manifesta imediatamente na luta por aumentos salariais e outras reivindicações proletárias e na busca de aumento do lucro, por parte da classe capitalista. Uma vez produzido o total de mais-valor num determinado contexto, o mais-valor global é repartido em toda a sociedade e cada classe social busca para si um montante maior do mesmo. A burocracia, como classe auxiliar da burguesia, fica com uma parte considerável do mais-valor global, bem como, em menor grau, a intelectualidade. Em certos momentos históricos de uma sociedade, a classe latifundiária fica com uma parte considerável do mais-valor global. As classes desprivilegiadas, com exceção do proletariado, ficam com uma parte irrisória do mais-valor global e as classes instituídas por relações de produção não-capitalistas, como o campesinato, sofrem com os “métodos secundários de exploração capitalista”. Assim, aparentemente, a luta de classes gira em torno da renda e de várias formas em que ela se reparte (incluindo o acesso aos bens coletivos e culturais), mas que é, no fundo, uma luta pela repartição do mais-valor global.
Essa luta, por sua vez, se relaciona com o aparato estatal, que é um dos principais mecanismos de repartição do mais-valor global. O Estado drena uma parte considerável do mais-valor global via impostos e outros meios e sustenta sua imensa máquina burocrática (o que inclui a burocracia estatal, tanto a estatutária quanto a governamental, além de subalternos e todos os demais)[11] e reparte parte do mais-valor sob outras formas, como a prevaricação[12], as políticas estatais de assistência social, etc.
Seria necessário dedicar um tempo e espaço extenso para apresentar todas as formas de repartição dos mais-valor global e por isso nos limitamos a esses aspectos[13]. A base de todo esse processo é a divisão social do trabalho, que constitui as classes sociais e é de onde elas lutam por tal repartição do mais-valor. A luta de classes é uma luta que remete à totalidade da sociedade, mesmo quando se limita aos interesses imediatos.
Os grupos sociais que constituem os movimentos sociais possuem outra dinâmica e interesses. O movimento negro, por exemplo, combate o racismo, que é um problema específico dos negros. Sem dúvida, ele pode, em alguns de seus setores, para combater o racismo, entrar na luta pela repartição do mais-valor. Ao exigir políticas de ação afirmativa, que significa dispêndio estatal, exige uma parte do mais-valor global. A justificativa para a exigência, no entanto, não é as necessidades de uma classe social e nem a divisão social do trabalho, e sim o passado histórico e/ou a situação racial. Mas também pode reivindicar uma legislação antirracista, o que não entra diretamente na repartição do mais-valor. O primeiro caso não seria semelhante? Apresenta um elemento de semelhança, pois remete ao processo de repartição do mais-valor, mas a reivindicação não é para beneficiar uma classe social e sim um grupo social, o que revela sua diferença. No segundo caso, a diferença é radical, pois se trata de uma questão específica de um grupo específico. Isso é derivado da diferença entre classe social e grupo social.
Sem dúvida, setores do movimento negro podem colocar como objetivo a revolução socialista ou apoiar determinada candidatura ao governo ou defendê-lo, mas isso é derivado de como os indivíduos dos grupos sociais que atuam nos movimentos sociais compreendem a sociedade, o que remete, por sua vez, ao problema da hegemonia (na sociedade e no movimento), as tendências internas, as distintas organizações com seus distintos interesses, etc. Essa posição diante das questões nacionais, governamentais, luta por transformação social, são parte do “duplo objetivo” existente nos movimentos sociais (VIANA, 2016c). Nenhum grupo social está fora da sociedade ou existe sem ligação com as lutas de classes (incluindo a política institucional, que remete ao problema das eleições, governos, disputas partidárias, etc.). O objetivo específico é o que constitui, legitima, o movimento social ou suas ramificações. Este é a sua razão de existir. O objetivo geral é um apêndice ou um segundo objetivo que pode ganhar força dependendo da ramificação do movimento social, podendo, inclusive se tornar principal em algumas ramificações, que, no entanto, não abandona o objetivo específico, pois se o fizer deixa de ser parte do movimento social[14].
No entanto, resta uma questão. A luta salarial numa empresa determinada ou numa categoria profissional é manifestação indireta da luta de classes, mas a luta salarial em nível nacional é manifestação direta da luta de classes. No primeiro caso, temos a reivindicação de setores, categorias, etc., da classe social e, noutro, da classe em seu conjunto. Essa foi a distinção que Marx realizou ao abordar a diferença entre “movimento econômico” (reivindicativo para setores da classe) e movimento de classe (reivindicativo para o conjunto da classe, ou seja, “político”). A distinção do movimento reivindicativo de parte da classe e movimento político do conjunto da classe serve como base para entendermos que os movimentos sociais são fundamentalmente movimentos reivindicativos quando se limitam aos objetivos específicos e, portanto, manifestam indiretamente a luta de classes[15]. Quando setores dos movimentos sociais realizam reivindicações mais gerais para os grupos sociais de base dos mesmos, isso não altera o quadro que continua meramente reivindicativo. Isso só se rompe quando setores dos movimentos sociais se unem com uma classe social e sua luta, especialmente no caso do proletariado, pois é somente com ele que o processo de superação positiva do capitalismo pode ocorrer.
Desta forma, movimentos sociais e movimentos de classe são distintos, tanto pela base social de cada um (grupo ou classe)[16] quanto pelos objetivos e outros elementos derivados. Um elemento fundamental de diferenciação é que as classes sociais são relacionais (divisão social do trabalho, exploração e distribuição de bens, aparato estatal, etc.) e os grupos sociais nem sempre. Esse esclarecimento conceitual é fundamental para observar a contribuição de Marx para uma teoria dos movimentos sociais. A partir dessa clarificação conceitual podemos dizer que Marx não abordou diretamente os movimentos sociais, a não ser algumas poucas referências aqui ou ali a um processo embrionário dos mesmos, como mostraremos adiante. O movimento operário, assim como o camponês, são movimentos de classe e não movimentos sociais.
Portanto, a abordagem de Marx sobre o movimento operário não serve de “modelo” para analisar os movimentos sociais, tanto por ele não ser um movimento social quanto por ter bases e dinâmica bem distinta. Obviamente que, em alguns casos, isso é feito para “resgatar Marx” para uma discussão em evidência, a dos movimentos sociais. Só que isso é feito através de uma forma equivocada e que acaba confundindo mais que esclarecendo. Em outros casos, a motivação oculta é colocar Marx como apenas mais um dos pensadores que se dedicou ao estudo dos movimentos sociais ou tornar o movimento operário apenas mais um movimento social entre outros e que estaria em declínio diante dos demais, que estariam em ascensão. Nesse sentido, é preciso superar esses equívocos e mostrar a real contribuição de Marx para uma teoria dos movimentos sociais.
A Contribuição de Marx para a Análise dos Movimentos Sociais
Se Marx não abordou diretamente e profundamente os movimentos sociais, em parte por causa da época em que produziu suas obras, e sim o movimento operário e outros fenômenos, então qual é sua contribuição para uma teoria dos movimentos sociais. Consideramos que sua contribuição é diversificada e sob formas distintas, umas mais diretas, outras mais indiretas. Sinteticamente, podemos dizer que Marx contribui para uma teoria dos movimentos sociais através do método, da teoria da história e da sociedade, da teoria do capitalismo, elementos mais específicos, e em alguns casos esparsos, de sua obra que podem ser vinculados com os movimentos sociais (teoria da ideologia, das formas de consciência, do Estado, etc.), apontamentos sobre os grupos sociais de base que geram movimentos sociais.
Seremos sintéticos na análise dessas contribuições, especialmente no caso do método dialético. Marx, ao elaborar o método dialético, forneceu uma ferramenta intelectual imprescindível para a análise da realidade e, por conseguinte, para a análise dos movimentos sociais e constituição de uma teoria sobre eles. Demonstramos, anteriormente, como, através do método dialético, é possível elaborar um conceito de movimentos sociais que ultrapassa os problemas e limites das demais definições (desde as embasadas em ideologias quanto as “empíricas”). Da mesma forma, contribui com sua teoria da realidade que nos permite perceber que os movimentos sociais são determinados, históricos e totalidades no interior de outra totalidade. Partindo dessa concepção é relativamente fácil perceber que os movimentos sociais surgiram em determinado momento e se desenvolveram graças à diversas determinações que expressam mudanças sociais (ou seja, na totalidade, que é a sociedade). Ele também contribui ao fugir da ilusão que foi denominada por Hegel como o “espírito da época”, especialmente possibilitando uma perspectiva crítica e não apologética dos movimentos sociais.
A teoria da história das sociedades desenvolvida por Marx, que contém uma teoria da sociedade, é outra contribuição fundamental. Não apenas, e novamente, por recuperar a historicidade, mas por ressaltar a questão da especificidade histórica[17]. A percepção da especificidade histórica é fundamental para entendermos que certos fenômenos existem em todas as sociedades (modo de produção, cultura, etc.), e outros que só existem em determinado conjunto de sociedades (Estado, classes sociais, exploração, etc.) e, ainda, alguns que só existem em uma sociedade (como, no capitalismo, mais-valor, acumulação de capital, proletariado, burguesia, movimentos sociais, etc.). Assim, fica mais claro a questão da historicidade dos movimentos sociais, que surgem a partir de certo momento do desenvolvimento capitalista e se transformam junto com suas mutações (que denominamos regime de acumulação). A teoria da sociedade de Marx, incluída em sua teoria da história, também traz elementos fundamentais para pensar os movimentos sociais, como a questão das classes sociais, das lutas de classes, da ideologia e formas de consciência que emergem a partir delas, das formas sociais (“superestrutura”) em geral. A análise dos interesses, das formas de consciência, etc., são elementos imprescindíveis para uma compreensão mais profunda dos movimentos sociais.
Uma das principais contribuições é a teoria do capitalismo de Marx. Embora seja pouco compreendida (a maioria se limita a ler apenas o volume 01 de O Capital, onde coloca a questão essencial da produção do mais-valor, mas que tem desdobramentos e que estão nos demais volumes da obra), a sua teoria do capitalismo apresenta uma análise do modo de produção capitalista ampla que ajuda a entender a sociedade capitalista em geral. A teoria do mais-valor, ao lado dos elementos complementares (especialmente a acumulação de capital), são fundamentais, bem como o processo de produção de mercadorias, o fetichismo das mercadorias, as lutas operárias (tal como a pela redução da jornada de trabalho), o significado do capital improdutivo (comercial, bancário, etc.), as necessidades da reprodução ampliada do capital, etc. Para entender os movimentos sociais é preciso entender essa sociedade e sua dinâmica, e, nesse sentido, Marx oferece uma contribuição fundamental.
A teoria do modo de produção capitalista de Marx oferece a chave explicativa do desenvolvimento capitalista e sua ressonância nos movimentos sociais, tanto em seu processo de formação, alteração, hegemonia interna, etc. Sem a teoria do modo de produção capitalista de Marx não seria possível compreender a evolução do capitalismo como uma sucessão de regimes de acumulação (VIANA, 2009; VIANA, 2015c). Os regimes de acumulação explicam as mutações e características de cada fase do capitalismo, o que significa uma determinada forma estatal (e isso incide sobre a análise das relações entre movimentos sociais e aparato estatal), processo de valorização e relações internacionais, elementos que exercem determinações sobre as formas sociais em geral e os movimentos sociais em particular.
A luta de classes, que está na base desse processo (a própria produção de mais-valor é luta de classes, pois é quando a burguesia impõe o trabalho alienado e a exploração e o proletariado resiste) e se generaliza em toda sociedade, se manifestando na produção, sociedade civil, cultura, etc. A dinâmica do movimento operário, por sua vez, é fundamental para entender a dinâmica dos movimentos sociais. Pois é nesse processo que emerge as divergências e tendências no inferior dos movimentos sociais, bem como as forças hegemônicas e isso se altera com a dinâmica da luta de classes. Em momentos de crise de um regime de acumulação e de radicalização das lutas de classes, os movimentos sociais também radicalizam e avançam (como no final dos anos 1960)[18]. A dinâmica da luta de classes e do processo de intensificação da repressão que lhe acompanha também é importante para explicar a dinâmica dos movimentos sociais, entre diversos outros aspectos.
É também a partir dessa análise de Marx que se torna possível analisar a mercantilização das relações sociais. A compreensão do processo de mercantilização das relações sociais e como isso afeta os movimentos sociais[19] só é possível a partir da teoria do modo de produção capitalista de Marx, bem como de diversos outros elementos derivados. A sucessão de regimes de acumulação, por sua vez, explica o processo de intensificação da mercantilização e isso ajuda a compreender a dinâmica dos movimentos sociais e a transformação de setores do mesmo em organizações burocráticas que já não fazem mais parte dele (VIANA, 2016). A análise das ondas de mercantilização (e de burocratização) e das escalas de mercantilização (e grau de burocratização) são elementos fundamentais para explicar como determinadas ramificações de movimentos sociais se transformam em organizações burocráticas e abandonam seu vínculo com os mesmos. Sem a análise de Marx sobre a produção especificamente capitalista de mercadorias e sobre o processo de acumulação de capital, a percepção desse processo teria sido impossibilitada.
Entre estes elementos podemos citar a questão da consciência, ideologia, aparato estatal, etc., em suas formas mais concretas, ou seja, tal como se manifestam no capitalismo. A hegemonia e as ideologias burguesas e seu impacto sobre os movimentos sociais é uma questão fundamental. É nesse campo específico que se coloca a questão da cultura e das mutações culturais do capitalismo. O vínculo das formas de consciência com as classes e interesses de classes é outro ponto fundamental. A partir da teoria geral de Marx sobre consciência e ideologia, bem como de sua análise específica de suas manifestações na sociedade capitalista, temos toda uma base teórica para uma compreensão mais adequada da relação entre movimentos sociais e cultura[20]. E nesse contexto, as mutações do capitalismo são também mutações culturais e as renovações hegemônicas e novas ideologias que emergem são produto dessa mudança histórica, expressa pela sucessão de regimes de acumulação. Uma compreensão mais adequada das novas concepções, ideologias, representações, criadas e que possuem impacto sobre os movimentos sociais, tal como o neoliberalismo, pós-estruturalismo, etc. é uma necessidade analítica.
A burocratização das relações sociais também é outro elemento fundamental que acompanha a mercantilização. Esses processos culturais e que se desenvolvem na sociedade civil e aparato estatal são elementos importantes para a compreensão dos movimentos sociais. A relação entre movimentos sociais e aparato estatal é uma das mais importantes e a análise que Marx realizou do Estado capitalista assume grande importância para entender essa relação. A análise de Marx da burocracia, especialmente a estatal e a empresarial, abre espaço para a percepção da crescente burocratização das relações sociais. Na época de Marx, a burocracia civil estava surgindo embrionariamente e ele vislumbrou isso e foi um dos pioneiros da crítica da burocracia partidária e sindical (VIANA, 2015d), apesar do seu estágio rudimentar, o que trouxe limites para a crítica, mas não a impossibilitou.
Por fim, Marx também contribui com alguns apontamentos sobre grupos sociais que geram movimentos sociais. Nesse caso, é uma contribuição que abarca o processo da situação social específica que gera insatisfação nos grupos sociais que são elementos necessários para a emergência de um movimento social. A grande maioria dos grupos sociais que vão gerar movimentos sociais surgirá muito tempo depois. Alguns já existiam, mas só gerarão movimentos sociais muitas décadas após. Marx fez alguns apontamentos muito breves sobre questão racial e outras, como a questão nacional, relacionadas com alguns movimentos sociais, mas teve um grupo social que apontou elementos que contribuem para a compreensão da razão dele ter gerado um movimento social.
Trata-se das mulheres. Marx fez várias declarações sobre a questão da mulher na sociedade capitalista (e também sob forma mais generalizada). Uma das principais razões para a emergência do movimento feminino é a opressão da mulher na forma específica realizada na sociedade capitalista. Em várias passagens de sua obra ele aborda essa questão. Marx mostra como, na sociedade capitalista, se cria um conjunto de problemas sociais derivados dela e coloca que não é apenas o proletariado que sofre nessa sociedade:
Em alguns trechos sobre o “suicídio”, extraídos das “mémoires tirés desenvolvimento archives de la police etc., par Jacques Peucheut, darei um exemplo dessa crítica francesa [...], que ao mesmo tempo pode nos mostrar até que ponto a pretensão dos cidadãos filantropos está fundamentada na ideia de que se trata apenas  de dar aos proletários um pouco de pão e educação, como se somente os trabalhadores definhassem sob as atuais condições sociais, ao passo que, para o restante da sociedade, o mundo tal como existe fosse o melhor dos mundos (MARX, 2006, p. 22).
O que Marx mostra nesse breve texto no qual expõe o material autobiográfico de Jacques Peucheut, é justamente o processo no qual o capitalismo gera um processo destrutivo dos seres humanos em geral. Aqui Marx mostra, ao contrário do que alguns pseudocríticos afirmam, que somente o proletariado é atingido pelos males do capitalismo e que ele não sabia ou desconhecia outros problemas sociais além dos que acometiam essa classe. Obviamente, que, por ser o proletariado a classe revolucionária, o seu foco era sobre ela, mas ele via na emancipação dos trabalhadores a emancipação humana em geral (MARX e ENGELS, 1988; MARX e ENGELS, 1982). Marx afirma que Peucheut, devido sua experiência militante, proporcionou uma “crítica das relações de propriedade, das relações familiares, e das demais relações privadas – em uma palavra, a crítica da vida privada” (MARX, 2006). Esse rebento que aparece como novidade para a abordagem culturalista ou dos supostos “novos movimentos sociais” já era efetivada por Marx muito antes. Antes de Habermas tratar do “mundo da vida”, Marx já mostrava a existência de uma crítica da vida privada. Contudo, há uma diferença fundamental entre a crítica marxista e a abordagem culturalista. Adiante retornaremos a isso.
O modo de vida capitalista, que é um “modo de vida fútil” (LEROY, 2014), gera o suicídio até nas classes privilegiadas, tal como se vê na citação de Peucheut por Marx, no qual cita um conjunto de motivos para tal nos “meios abastados”, tal como os “amores traídos”, “falsas amizades”, “desgosto de uma vida monótona”, etc. A razão do suicídio encontra-se na sociedade: “que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões” (PECHEUT apud MARX, 2006, p. 28). A partir das citações de Peucheut, Marx mostra o suicídio feminino gerado por repressão sexual, ciúmes, moral sexual. A sociedade capitalista, que gera uma competição desenfreada e torna o ciúme um sentimento predominante, bem como a preservação da propriedade, especialmente no século 19, quando os métodos contraceptivos ainda não haviam se desenvolvido como ocorrerá posteriormente, gerando repressão e moral repressiva, são processos que atingem principalmente as mulheres.
A crítica de Marx da família burguesa (MARX e ENGELS, 1988) complementa a crítica da opressão feminina expressa neste opúsculo. Da mesma forma, a opressão feminina é gerada pela sociedade capitalista[21] e por conseguinte é preciso superar tal sociedade. Ao afirmar que o grau de civilização da humanidade pode ser medido pelas relações entre homens e mulheres (MARX, 1983b) aponta para não somente uma crítica da opressão capitalista da mulher, como também para sua superação, pois, em outra obra, afirma que o objetivo do comunismo é arrancar a mulher da situação de ser “instrumento de produção” (MARX e ENGELS, 1988). O processo de humanização significa a superação da opressão da mulher e o comunismo[22] seria a forma de concretização desse processo.
Essa abordagem de Marx, apesar de ser apontada em escritos esparsos e não em uma obra estruturada visando abordar especialmente esse tema, mostra a situação de um grupo social que posteriormente será gerador de movimento social, e da necessidade de entender a situação social específica de tal grupo e sua insatisfação social, no interior do conjunto das relações sociais em que ele existe. Aqui o método dialético reaparece, no sentido de mostrar a relação entre o particular e o total, que é sua forma específica de inserção na totalidade (VIANA, 2007). A especificidade de um grupo social gera a especificidade do movimento social que emerge a partir dele e por isso é necessário entender os movimentos sociais em geral e os movimentos sociais específicos (JENSEN, 2016). Assim, no contexto da época em que Marx viveu, já apontou para a crítica da vida privada e também para a situação da mulher na sociedade capitalista, antes de surgir o movimento feminino e as ideologias feministas, bem como antes de surgir o culturalismo e o discurso sobre o “mundo da vida”. Essa consciência antecipadora, no entanto, possui outra base teórico-metodológica e por isso seu desenvolvimento significa uma contribuição muito mais sólida e importante do que as de algumas abordagens contemporâneas, especialmente as culturalistas, fundadas no reducionismo e na recusa da totalidade concreta. O reducionismo, elemento característico do pensamento burguês busca se opor ao marxismo, mas o marxismo é a superação teórica e prática de todas as formas de reducionismo.
Considerações Finais
Em síntese, o que buscamos aqui foi apresentar a contribuição de Marx para uma teoria dos movimentos sociais. Antes foi necessária uma análise dos escritos de alguns que abordaram essa contribuição ou a limitaram/recusaram e, posteriormente, um esclarecimento conceitual que já apontou algumas das contribuições, o que foi complementado por um item dedicado especificamente a isso.
A conclusão geral a que chegamos é que Marx foi um autor que ofereceu uma inestimável contribuição para a constituição de uma teoria dos movimentos sociais. Desta forma, aqueles que recusam ou negam tal contribuição deixam de lado um rico referencial teórico-metodológico para a análise dos movimentos sociais e também vários aspectos da realidade que seriam incorporados ao utilizá-lo. Por outro lado, aqueles que não compreendem adequadamente o pensamento de Marx, buscam extrair dele elementos de sua concepção que são descontextualizados e, assim, deformados. Um desses elementos é utilizar a análise de Marx do movimento operário, o movimento de uma classe revolucionária, e sim apresentar uma concepção apologética dos movimentos sociais.
Assim, querer usar o termo “práxis” ou mesmo “solidariedade”, que Marx utilizou para analisar o movimento operário é uma extrapolação. Sem dúvida, o conceito de práxis é muito amplo e por isso pode ser percebido em alguns movimentos sociais, bem como a solidariedade. Porém, se manifesta de forma distinta e, o mais importante, não se manifesta em todos os movimentos sociais ou em todas as ramificações de um movimentos sociais. Os movimentos sociais conservadores e as tendências conservadoras nos movimentos sociais reformistas não possuem a solidariedade como valor e essa transposição acaba reforçando uma concepção ingênua e apologética dos movimentos sociais. Desta forma, a contribuição real de Marx é esquecida (e não praticada, tal como o uso do método dialético) e em seu lugar aparece uma contribuição fantasmática que mais confunde e cria representações ilusórias do que ajuda a compreender os movimentos sociais.
Por tudo isso, fica claro que Marx traz uma grande contribuição para uma teoria do movimentos sociais, ainda muito incipiente e incompleta, e que precisa se inspirar nesse autor para avançar e se desenvolver. O nosso objetivo foi destacar esse elemento fundamental e fundamentá-lo e consideramos que o alcançamos.

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[1] Adiante vamos discutir a relação entre movimento de classe e movimentos sociais, mas mesmo para as abordagens que consideram o movimento operário como um movimento social, essa transferência é indevida, pois ele seria parte e não o todo e seria necessário realizar essa distinção e compreender tudo que é derivado disso, o que não ocorre no caso. Por exemplo, Marx considera o proletariado como uma classe revolucionária e apenas as classes que se aliam (o que é a tendência das classes que podemos denominar “desprivilegiadas”, tais como campesinato, lumpemproletariado, etc.) a ele exerceriam um significado análogo, sendo que as demais classes (que podemos denominar “privilegiadas”, como a burguesia, os latifundiários, os burocratas, etc.) são tidas como conservadoras. Os movimentos sociais, em sua maioria, são policlassistas e isso, por si só, já coloca um problema e dificilmente poderíamos esquecer que os movimentos sociais são hegemonicamente reformistas e que existem movimentos sociais conservadores (VIANA, 2016a).
[2] Para uma crítica do uso do termo “pós-moderno” (pós-modernidade e pós-modernismo) e crítica de algumas ideologias chamadas “pós-modernas”, cf. Viana (2009). Essas concepções também foram criticadas por Eagleton ( (EAGLETON, 1998; BRAGA, 2013).
[3] Melucci distingue definições empíricas e definições analíticas. Apesar de concordarmos parcialmente com suas considerações, julgamos mais adequado denominar as demais como “definições modelares”, pois acabam funcionando como um “modelo” ou sendo derivados de um modelo (tal como o funcionalismo).
[4] Isso foi explicitado por Marx (1989), Pannekoek (1978), Viana (2012), entre outros.
[5] Sobre representações cotidianas, cf. (VIANA, 2008; VIANA, 2015a).
[6] O signo (palavra) “movimentos sociais”, por sua vez, é o que um grande número de autores assim denominou, embora muitas vezes impropriamente. Mas também é usado nos próprios movimentos sociais, nos meios de comunicação, etc. Outro signo poderia ter sido escolhido, como, por exemplo, movimentos grupais. Contudo, isso seria um obstáculo para o entendimento e para a difusão da teoria. Por isso, como o termo “movimentos sociais” não é obstáculo e nem traz dificuldades, pode ser usado. Nesse caso, é a sua conceituação que se torna o problema, mas, sendo realizada adequadamente, atende à necessidade de expressar a realidade.
[7] Sobre grupos sociais, cf. Viana (2016a).
[8] Os interesses imediatos são aqueles que estão ligados à reprodução da classe dentro do capitalismo (no caso das classes desprivilegiadas, é o caso da sobrevivência, do acesso a bens culturais e coletivos, etc.) e os interesses fundamentais são aqueles ligados à solução definitiva dos seus problemas (no caso do proletariado, abolição da extração de mais-valor, ou seja, do capitalismo e de si mesmo). O proletariado tem como interesses imediatos melhores salários e condições de trabalho e como interesse fundamental a instauração da autogestão social.
[9] Obviamente que aqui se trata da concepção de Marx, muito mais complexa que a simplificação economicista de Lênin (VIANA, 2012) e reproduzida por diversos outros, que relacionam classes sociais e meios de produção ou, em alguns casos, relações de produção, deixando de lado o que as caracteriza enquanto classes e também que nem todas as classes estão ligadas diretamente às relações de produção e muito menos aos meios de produção, pois existem as classes improdutivas, ligadas às formas sociais, ou “superestrutura” (VIANA, 2012).
[10] Isso é suficiente para ver a diferença entre a concepção marxista de classes sociais e as ideologias da estratificação social e as simplificação que é a divisão da sociedade em classes A, B, C, D, ou alta, média e baixa, que não passam de sistemas classificatórios arbitrários (VIANA, 2012).
[11] Sobre burocracia como classe social, cf. Viana (2012; 2015b).
[12] A prevaricação é a conversão da renda estatal em renda pessoal ou empresarial, ou, em palavras mais simples, do público em privado, tal como no caso da corrupção, subsídios para empresas capitalistas, etc. (VIANA, 2016b).
[13] A teoria da repartição do mais-valor está exposta em O Capital (MARX, 1988) e é retomada e desenvolvida em Viana (2016b).
[14] O movimento negro é apenas um caso concreto, pois esse fenômeno se manifesta em todos os movimentos sociais, com diferenças e sob formas distintas, dependendo do movimento social específico em questão.
[15] Uma outra consequência desse processo é que as classes sociais podem gerar grupos sociais específicos que, por sua vez, podem gerar movimentos sociais específicos. É o caso do lumpemproletariado, que pode gerar, em um dos grupos sociais gerados por ele, um movimento social, como o movimento piqueteiro na Argentina ou, então, setores do movimento operário que geram grupos situacionais que podem gerar um movimento social urbano. Os grupos sociais derivados de apenas uma classe social também podem gerar um duplo objetivo, sendo que o objetivo específico não ultrapassa os limites reivindicativos e o objetivo geral pode ser nacional (como reforma urbana no caso dos movimentos sociais urbanos), governamental (eleger determinado governo que promete reforma urbana ou qualquer outra coisa que beneficie o grupo social) ou revolucionário (aqui se reaproxima do caráter de classe, mas ainda continua sendo parte de um movimento social se não abandonar os objetivos específicos).
[16] Seria interessante acrescentar que, em relação a determinados grupos sociais geradores de movimentos sociais, existem alguns cujas diferenças são ainda maiores. Esse é o caso dos grupos sociais cujo pertencimento é definido pela corporeidade. Um indivíduo que nasce negro não pode sair do grupo, enquanto que um indivíduo, apesar da raridade e dificuldade no caso ascendente, pode mudar de classe. Sem dúvida, há alguns casos em que o indivíduo pode tentar isso através de meios artificiais (remédios, cirurgias, etc.), mas a sua eficácia é relativa e o fantasma do passado sempre assombra e cria vínculos irremovíveis.
[17] Korsch foi o autor que mais ressaltou essa característica do materialismo histórico (KORSCH, 1983; VIANA, 2014).
[18] Isso foi perceptível no movimento estudantil e teve como expressão máxima a Rebelião Estudantil de Maio de 1968 na França, bem como no Movimento Negro, nos Estados Unidos, com a emergência de tendências contestadoras e radicais (Panteras Negras, Poder Negro, etc.), entre outros casos concretos.
[19] A chamada “teoria da mobilização de recursos” (ALONSO, 2009; GOHN, 2002) foi a abordagem que mais se aproximou de uma análise desse processo de mercantilização, ao focalizar as organizações e recursos. No entanto, sua base ideológica (Weber, economia marginalista, escolha racional), geralmente implícita, dificultava um avanço explicativo do fenômeno. Se essa base ideológica tivesse sido substituída pela teoria do capitalismo de Marx, então teria rompido com seus limites e teria podido explicar de forma muito mais profunda e ampla o significado dos recursos no desenvolvimento das organizações e sua atuação social na sociedade civil e em relação ao aparato estatal.
[20] A chamada “teoria dos novos movimentos sociais” (ALONSO, 2009; GOHN, 2002) apontou para alguns elementos dessa relação, mas sob forma metafísica e sem uma teoria da consciência ou da ideologia mais especificamente. Assim, termos como “cultura”, “identidade”, “imaginário”, entre outros construtos ideológicos, aparecem como se surgissem do nada ou como se fossem “a verdade”, aquilo que seria “definitivo” ou único, mesmo que sendo uma suposta “pluralidade”. As bases reais e sociais (inclusive o estágio do desenvolvimento capitalista, ou seja, o regime de acumulação da época) não aparecem. As ideias, a cultura, a identidade, são apresentadas como descoladas da realidade ou superficialmente ligadas a ela, ou, ainda, a partir de uma concepção evolucionista do saber, pois na sociedade mais recente emergem as ideias melhores. Assim, a abordagem da cultura e sua relação com os movimentos sociais é fundamental, mas da forma em que a abordagem culturalista a efetiva, é mais um obstáculo do que uma solução.
[21] Marx estava distante dos maniqueísmos simplificadores que isolam as relações entre homens e mulheres e atribuem aos indivíduos do sexo masculino a responsabilidade da opressão feminina, gerando uma essencialização que tem no termo “machismo” a sua concretização mais cristalina. Uma passagem de Peucheut, descrita por Marx, mostra o suicídio de um homem, por ter ficado desempregado e não poder sustentar sua família (uma esposa e duas filhas) e ter que viver dos parcos rendimentos do trabalho delas. Isso é apenas um exemplo de que a opressão não é apenas feminina, mas também masculina, embora em menor grau, mas ambos são constituídos por esta sociedade e não pelo outro sexo. O moralismo e a moral dominante são produtos sociais e históricos que atingem ambos os sexos e não foi mera criação dos indivíduos do sexo masculino e sim de uma determinada sociedade com suas relações sociais e necessidades derivadas, incluindo o controle do corpo da mulher como forma de controle da propriedade e da herança.
[22] Não custa recordar que o que Marx entendia por “comunismo” nada tem a ver com o que os partidos, países, indivíduos, autodeclarados “comunistas” dizem ou realizam.

domingo, 27 de novembro de 2016

Repressão Brutal e Discurso Jornalístico no Massacre de Avellaneda, Grande Buenos Aires (26/06/2002)



Artigo publicado originalmente na Revista Movimentos Sociais - http://redelp.net/revistas/index.php/rms/issue/view/55

Lisandro Braga[1]

Resumo: O artigo discute a relação entre repressão estatal violenta e discurso jornalístico que criminaliza no Massacre de Avellaneda, buscando demonstrar a atuação do bloco dominante (burocracia, intelectualidade, burguesia comunicacional e outras) tanto através da repressão estatal, quanto das empresas capitalistas de comunicação (capital comunicacional) na construção de inimigos imaginários em torno do movimento de desempregados e de discursos que criminalizam suas lutas.

Palavras-chave: Movimento piqueteiro; bloco dominante; repressão estatal; discursos jornalísticos.

Resumen: El artículo analiza la relación entre la represión estatal violenta y el discurso periodístico que criminaliza en la Masacre de Avellaneda, buscando demostrar el accionar del bloco dominante (burocracia, intelectuales, burguesia comunicacional y otros) tanto a través de la represión estatal, como de las empresas capitalistas (capital comunicacional) en la construcción de enemigos imaginarios en torno al movimiento de desocupados y discursos que les criminalizan.

Palavras-clave: Movimiento Piquetero; Bloco dominante



Entre o dia 21 e 28 de dezembro de 2001, em um lapso de 08 dias após a renúncia de Fernando De la Rúa, a presidência da república argentina foi ocupada sucessivamente por três dirigentes do Partido Justicialista – Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saa e Eduardo Camaño. A assembleia legislativa aprovou a nomeação de Eduardo Duhalde para conduzir o governo de transição, a partir de primeiro de janeiro de 2002. Sua principal medida política, tomada no dia 06 de janeiro, foi encerrar a convertibilidade[2]. Tal medida ocasionou uma desvalorização do peso de mais de 300% em pouquíssimos dias. Para as classes desprivilegiadas tal forma regularizadora expressou mais uma expropriação indireta de suas rendas e uma maior expansão do lumpemproletariado[3] na Argentina.

Desse modo, começou a tomar forma um novo modelo de acumulação que expressou mudanças nos preços relativos favoráveis à produção e exportação de bens. Esse modelo tem como marca de origem uma forte deterioração das condições de vida das classes subalternas expressadas nos mais elevados índices de pobreza, indigência e desemprego (lumpemproletarização - LB) da história argentina. Ao mesmo tempo se aprofundou o processo de concentração e centralização de capital que teve lugar no contexto de crises, porém manifestando mudanças nas relações de forças entre as frações da classe dominante (VARESI, 2012, p. 09-10).

A contestação social se fez presente desde os primeiros dias do governo interino de Eduardo Duhalde e tendeu a intensificar seus níveis de radicalidade, visto que as medidas regularizadoras estatais ampliavam o perverso estrangulamento social de uma gama imensa de classes e frações de classes desprivilegiadas que viviam à margem da divisão social do trabalho ou que foram lançadas a ela a partir das novas medidas regularizadoras. Os subalternos, o proletariado precarizado e o lumpemproletariado foram as classes e suas frações de classes que majoritariamente (um pouco mais de 50% do total de contestadores sociais) sustentaram essa nova etapa do ciclo de contestação social que acompanhou a regularização neoliberal argentina desde seu início.

O primeiro mês desse governo registrou uma quantidade expressiva de atos de contestação social (555) que até então só ficaria atrás da quantidade ocorrida na contestação social generalizada de dezembro de 2001 (713). Em uma intensidade e quantidade menor, os atos de contestação social mantiveram-se nos meses seguintes, porém seguindo um período de expansão (janeiro/maio), acompanhado de um período de redução da contestação social (junho/dezembro) e de maior isolamento da luta dos desempregados (COTARELO, 2005).

É possível conjecturar que a decisão governamental de endurecer ainda mais a repressão ao movimento piqueteiro[4] deu-se em parte aproveitando esse contexto de redução dos níveis de contestação social e isolamento dos setores do lumpemproletariado bonaerense mais radicalizado, assim como pela necessidade de regularizar a produção de capital que exigia a recuperação da credibilidade do bloco dominante e da burguesia financeira internacional e seus organismos de financiamento. E isso dependia fundamentalmente de medidas eficazes, tomada pelo governo para eliminar definitivamente o movimento piqueteiro, seus bloqueios de estradas e outros de seus métodos ameaçadores da sociabilidade capitalista.

Os discursos do bloco dominante[5] transmitidos pelo capital comunicacional apontavam para a confirmação dessa conjectura e expressavam os sinais desse bloco em relação às suas pretensões, especialmente diante da contestação social piqueteira. A possibilidade de recorrer à repressão violenta para evitar os bloqueios piqueteiros transparecia:

“o presidente Duhalde considerou ontem que “a conflitividade social na Argentina está baixando de forma abrupta” e que “o pior da crise já passou”. “Existe uma tranquilidade na população que é um valor que temos que preservar”, assinalou. Duhalde citou o caso dos piqueteiros: “o conflito vai amenizando na medida em que os planos sociais vão se incorporando aos setores mais desfavorecidos. Os planos sociais estão se aperfeiçoando”, agregou. Contudo, advertiu que o governo não tolerará novos bloqueios massivos dos acessos à Capital Federal. “Não podem ocorrer mais, temos que seguir pondo ordem”, disse em uma conferência de impressa na Casa Rosada” (Clarín, 18/06/2002).

“BUSCAM FREIAR BLOQUEIOS DE PONTES – O governo quer evitar que os piqueteiros voltem a bloquear os acessos à capital. Também impulsiona um reforço da presença policial na cidade. Preocupa o incremento do delito no interior bonaerense” (Chamada de notícia, Clarín, 19/06/2002).

“Ontem o governo nacional deu sinais de que não vai permanecer inativo se as organizações de desempregados e piqueteiros procuram bloquear de forma simultânea todos os acessos à Capital Federal. No mesmo tom com os ditos do secretário de Segurança, Juan José Alvarez, de que “não vai permitir” que isso ocorra, ontem foram convocados altos funcionários a uma reunião que teve como lugar a Casa de Governo, onde se analisou a questão” (Clarín, 19/06/2002).

Tais discursos, expressos especialmente pela burocracia governamental, apresentam alguns elementos importantes para compreendermos a repressão estatal que estava por vir no dia 26 de junho de 2002. Em primeiro lugar, é importante destacar que não é do interesse do bloco dominante revelar a realidade social concreta, pelo contrário, essa deve ser camuflada por discursos ideologêmicos (fragmentos de falsa consciência sistematizada), tais como esse que busca transparecer que a conflitividade social se reduzira, que o pior momento da crise já passou e que, portanto chegara o momento da população se tranquilizar. Inclusive, a suposta tranquilidade da população, que pode ser encarada como passividade diante das regularizações estatais e suas consequências nefastas, foi um valor a ser supostamente defendido pelo bloco dominante.

Além disso, as políticas paliativas eram apresentadas como uma ação estatal em busca da resolução dos problemas sociais que afetam as classes desprivilegiadas, algo que, como já vimos anteriormente, esteve longe de resolver os interesses imediatos do lumpemproletariado. Pelo contrário, servia como mais uma ferramenta de controle social, cooptação, fragmentação etc. No fundo, o que está implícito nesses discursos ideologêmicos é que o estado vinha buscando resolver os problemas dos menos favorecidos, com o aperfeiçoamento dos planos sociais, e que a contestação social piqueteira não mais se justificaria em um momento de calmaria social, pois “em momentos de confusão (os bloqueios) podiam ser admitidos. Porém, agora não tem que agravar os problemas sociais com ações violentas. Tem que por ordem”, afirmava Duhalde.

Com isso, o bloco dominante buscava construir uma corrente de opinião que apresentava o movimento piqueteiro como inimigo da ordem social, agitadores e simpatizantes da violência, que buscavam fundamentalmente pertubar a ordem social. Sendo assim, ou o movimento piqueteiro aceitava as escassas migalhas concedidas pelos planos sociais, mantendo-se na extrema miséria lumpemproletária, ou lhe restaria somente a repressão violenta, caso voltasse a por em prática os métodos piqueteiros (ação direta no bloqueio de estradas, ruas, pontes etc., decisões horizontais, práticas assembleiarias, enfrentamento com as forças repressivas etc.) Em síntese, a ideia central era que a ordem deveria sobrepor-se aos caos piqueteiro e sua violência. De forma ideologêmica, a luta contraviolência da regularização neoliberal era apresentada como uma prática violenta que agravava os problemas sociais. Como se o movimento piqueteiro fosse ele mesmo responsável pelo agravamento de sua própria condição social. Nos discursos ideologêmicos do bloco dominante, veiculados pelo capital comunicacional, reinava a prática da inversão da realidade.

Também nos chama a atenção a forma como a chamada da notícia foi construída, pois a necessidade de reforçar a presença policial nas ruas se “justifica” pelo aumento do delito no conurbano bonaerense. Assim, a repressão preventiva em território piqueteiro era disfarçada de políticas de segurança social, pois tal discurso deixava transparecer que o território bonaerense é um território caracterizado pelo crime e que, portanto, exige maior policiamento e controle social, além de reforçar a corrente de opinião que associa a figura do piqueteiro à figura do delinquente. Definitivamente, o que o bloco dominante buscava era por fim ao movimento piqueteiro e para que isso se justificasse era necessário legitimar a repressão violenta, criminalizando a pobreza e o lumpemproletariado e outras classes desprivilegiadas, responsáveis pela contestação social. O Massacre de Avellaneda foi orquestrado e efetuado nesse cenário.

Esses discursos foram pronunciados durante uma reunião no dia 18 de junho de 2002, na Casa de Governo, onde estiveram presentes o chefe de gabinete Alfredo Atanasof, a ministra do trabalho Graciela Camaño, o ministro da justiça Jorge Vanossi, o secretário de segurança Juan José Álvarez, os chefes da polícia federal, da gendarmaria e da prefectura e outros integrantes do bloco dominante. O assunto fundamental a ser tratado nessa reunião era a marcha dos planos sociais e a questão da segurança interna. Nesse dia foi apresentado um plano repressivo que se iniciava com o aumento de 60% do número de policiais nas ruas, com o objetivo de reforçar tanto a repressão preventiva, quanto a repressão contrainsurgente. Juntamente com esse aumento do número de policiais, também foi informado que a gendarmaria e a prefectura atuariam em conjunto “dedicando a controlar as ferrovias e pontes de acesso à cidade” (Clarín, 19/06/2002).

Em relação a essa segunda modalidade repressiva, frações da burocracia (governamental e estatal) deixavam clara sua disposição em acabar com a contestação social e os bloqueios de estradas. No fundo, essa representava a maior ameaça à estabilidade política e suas formas de regularização, fundamentadas na ampliação dos ajustes antissociais. Por conseguinte, a maior tarefa imposta à burocracia governamental era a de encontrar uma maneira de enterrar a contestação social de uma vez por todas, já que nos primeiros cinco meses de governo ocorreram aproximadamente 11 mil mobilizações, segundo informações fornecidas pela secretaria de segurança.

O governo de Duhalde nasceu em meio às pressões de setores do bloco dominante e dos organismos internacionais de financiamento, que exigiam uma postura mais dura com o movimento piqueteiro e, acenando para esses setores, seu secretario de segurança Juan José Álvarez, declarava guerra aos bloqueios simultâneos aos acessos da capital federal, afirmando que tais práticas seriam encaradas pelo governo como “uma ação bélica”, e assim seriam respondidas pelas forças estatais.

Em meio a esse cenário que apontava para uma maior criminalização e repressão violenta ao movimento piqueteiro, o Bloco Piqueteiro Nacional, composto por diversas organizações, em conjunto com a Coordenadora de Trabalhadores Desempregados Aníbal Verón, que reunia quase 20 organizações piqueteiras da zona sul e oeste do conurbano bonaerense, não recuaram com seus métodos de contestação social. Pelo contrário, anunciaram uma mobilização que incluía bloqueios de diversas pontes de acesso à capital federal, para o dia 26 de junho de 2002, dia do Massacre de Avellaneda. As organizações com forte tendência à institucionalização e posturas mais moderadas, tais como FTV e CCC, se recusaram a participar da mobilização por não concordarem com os planos de luta contra o governo de Duhalde, com o qual mantinha constante dialogo e negociação.

A mobilização massiva com mais de 20 mil militantes piqueteiros, convocada pelo bloco piqueteiro para o dia 26 de junho, exigia do estado cinco pontos: 1- O pagamento dos planos de empregos que para muitos desempregados estavam atrasados há vários meses; 2- O aumento dos subsídios de 150 pesos para 300 pesos; 3- A implementação de um plano de alimentação a ser gerido pelos próprios piqueteiros; 4- Investimentos nas escolas e postos de saúde dos bairros; 5- Liberdade e recuo nos processos judiciais contra os contestadores sociais e o fim da repressão.

Por mais que no interior do bloco piqueteiro não havia sido realizado nenhuma sistematização mais concreta a respeito dos riscos de uma repressão violenta à jornada de mobilização, na ponte pueyrredón, a percepção de muitos apontavam para uma mudança significativa na relação entre piqueteiros, burocratas estatais e punteros políticos, desde a chegada de Duhalde à presidência interina da república. Diversos jovens que compunham as comissões de segurança nos piquetes já alertavam para o risco da situação ficar feia, pois muitos prefeitos dos municípios do conurbano haviam retomado o controle sobre a assistência social e se mostravam dispostos a disputar palmo a palmo com os piqueteiros o controle sobre a entrega dos subsídios nos bairros. A partir daí as ações repressivas tornaram-se variadas e imprevisíveis.

Em seis meses de governo interino as forças repressivas vinham ampliando suas brutalidades, ameaças e intimações amedrontadoras contra os piqueteiros. No dia 10 de janeiro, ao voltar de uma manifestação na ponte pueyrredón, o desempregado Luis Salazar é interceptado por dois desconhecidos, no qual um deles lhe empurra uma pistola no estômago e diz: “Viu como é fácil? Se te acertamos aqui ninguém vê”. No dia 22 de janeiro um carro com vidros fumês e sem placa se aproxima de Nicolás Lista, dirigente da Coordenadora de Desocupados de Lanús, e exibe uma metralhadora o ameaçando de morte. No dia 24 de janeiro Nina Peloso, dirigente do Movimento Independente de Jubilados e Pensionados (MIJP), é perseguida por seis carros que disparam diversos tiros para cima para amedrontar os militantes desse movimento e a sequestram durante dois dias, ameaçando arrebentá-la se seguir perturbando. No dia 25 de janeiro, a polícia federal reprime violentamente o primeiro panelaço contra o governo de Duhalde, deixando um saldo de 30 prisões, dezenas de feridos por pauladas e balas de borracha e dois jovens militantes torturados e levados no interior de um taxi. Na madrugada do dia 06 de fevereiro de 2002, um bloqueio realizado por um MTD do município Esteban Echeverría, em exigência de planos de emprego e alimentos para refeitórios populares, foi atravessado por um Ford Falcon conduzido por Jorge Bogado, um velho puntero político, ex-policial com estreitos vínculos com políticos locais, inclusive ligados à última ditadura burguesa e suas práticas terroristas, que sacou sua pistola 09 mm e efetuou vários disparos à queima roupa que assassinaram Javier Barrionuevo, um piqueteiro de 31 anos de idade. Em frente à prefeitura de Lanús atiraram contra uma mobilização, ameaçando e intimidando diversos manifestantes. No início de junho, em uma mobilização no município de Presidente Perón uma patota (organização criminosa no qual a burocracia faz uso para reprimir seus opositores e contestadores) armada do partido justicialista se demonstrou bem disposta a enfrentar e agredir os piqueteiros. No dia 22 de fevereiro, outra patota composta por 150 membros de torcidas organizadas (barra bravas), agride com paus e correntes aos vizinhos que realizavam um panelaço contra o prefeito do município de Merlo (responsável por inúmeras violações contra os direitos humanos). Esse ataque violento ocorreu na praça principal e não poupou mulheres e crianças. No mesmo dia, em Ituzaingó (município da zona oeste do conurbano bonaerense), ocorre uma agressão semelhante a uma assembleia local. Em ambos os episódios a polícia bonaerense promoveu as tradicionais “zonas liberadas”, isto é, se afastou da região para garantir a agressão (PÁGINA 12, 16/06/2002; ANÍBAL VERÓN, 2012). A repressão terrorista que assassina (gatilho fácil) militantes piqueteiros já vinha se consolidando desde as primeiras aparições do movimento piqueteiro.

É importante destacar que a mobilização convocada para o dia 26 de junho de 2002 foi resultado de inúmeras tentativas fracassadas do movimento piqueteiro em buscar uma negociação com o governo que, desde que assumiu a presidência, se negava a recebê-los para um diálogo sobre suas necessidades, exigências etc. Diante de uma somatória de tentativas falidas, o movimento piqueteiro entendeu que a única maneira de pressionar o governo e garantir sua atenção era com uma demonstração de força mediante um massivo bloqueio da circulação do fluxo de capital e da força de trabalho, em todos os principais acessos à capital federal. O enfrentamento se apresentava como a única solução digna para os piqueteiros, que se afundavam cada vez mais na miséria social. As informações do INDEC disponibilizadas no mês de junho de 2002 revelava aquilo que os piqueteiros sentiam cotidianamente na pele, pois, segundo tais informações, existia no país mais de 06 milhões de desempregados e subempregados, 18.219.000 milhões de pobres, cifra que representava mais da metade da população nacional, que também se encontrava por debaixo da linha da pobreza. Desse total, 7.777 milhões eram indigentes (ARTESE, 2009; MTD ANÍBAL VERÓN, 2012, CLARÍN, 09/06/2002).

As declarações que circulavam pelo capital comunicacional, após tornar pública a inteção do bloco piqueteiro em promover uma, na Ponte Pueyrredón, no dia 26 de junho de 2002, não deixavam dúvidas acerca da intenção do bloco dominante em tornar ilegítima, assim como de reprimir violentamente tal mobilização:

“O chefe de gabinete, Alfredo Atanasof, reiterou que existe a decisão de utilizar ‘todos os mecanismos para fazer cumprir a lei’ e evitar que a capital fique isolada, diante da qual os piqueteiros ratificaram a medida e disseram que manteriam os bloqueios sobre as pontes que dão entrada a cidade [...] Atanasof qualificou a decisão de bloquear esses pontos como ‘um ato irracional’. Disse, inclusive, não saber ‘que fins perseguem os dirigentes’ e considerou que sua metodologia não faz mais que ‘contribuir com o caos’” (Página 12, 25/06/2002).

“Em uma eventual situação de caos absoluto, naturalmente se pensa que alguém terá que por ordem. Então a hipótese leva a pensar que os militares argentinos seguramente estão pensando nessa hipótese. Se eu fosse (o chefe do exército, Ricardo) Brinzoni, por mais que quisesse que não houvesse nenhuma perturbação, minha obrigação profissional seria ter o plano B (Página 12, 15/06/2002).

“A questão dos piquetes e do possível bloqueio simultâneo aos acessos da cidade é uma das maiores preocupações do governo em relação ao conflito social, que já registrou mais de 11 mil manifestações nos primeiros cinco meses do ano, segundo dados da Secretaria de Segurança revelados ontem por Clarín. Alvarez advertiu que se bloqueiam todos os acessos ao mesmo tempo será encarado pelo governo como uma ação bélica” (Clarín, 19/06/2002).

“O MASSACRE ANUNCIADO – um juiz da nação antecipava a esse cronista, há 72 horas, que se preparava uma violenta repressão contra os piqueteiros na Ponte Pueyrredón. Fiquem de olho – disse o magistrado – vão meter bala. O magistrado sabia pelo pessoal de segurança com quem estava em contato devido as suas funções” (Página 12, 27/06/2002).

A perspectiva do bloco dominante não tem interesse em revelar a realidade concreta, mas tão somente contribuir para a construção de uma corrente de opinião contrária à contestação social piqueteira. Com esse intuito é que podemos perceber a finalidade do discurso ideologêmico (fragmentos de ideologia no sentido marxista) e por isso o ato de bloquear os acessos à capital federal é apresentado como algo que não possui uma razão de ser, um ato irracional. No entanto, sabemos que tais discursos simplificam, ofuscam e escondem a realidade concreta, isto é, o processo de lumpemproletarização que lançou milhares de pessoas à condição de classe marginalizada da divisão social do trabalho, tendo como objetivo fundamental disciplinar a força de trabalho, impor condições extremamente precárias de trabalho, baratear a força de trabalho, em suma, alavancar a acumulação integral de capital. E qualquer movimento que se apresente como obstáculo a esse processo precisa ser anulado, tornado ilegítimo e reprimido.

Porém, como não e do interesse do bloco dominante permitir que a realidade concreta seja percebida tal como ela é, esse bloco busca apresenta-la de forma invertida e de vítima da acumulação integral o movimento piqueteiro é transformado em um movimento violento e ilegítimo, que não possui outra finalidade (a dignidade da luta contra a miséria, por exemplo) que não seja a de perturbar a ordem social, promover o caos etc. A forma como isso é construído fundamenta-se em afirmações simplórias sem muita reflexão, tal como a de afirmar que os dirigentes piqueteiros não possuem outros objetivos que não o de promover o caos. Dessa maneira, constrói-se uma polaridade entre “nós” (os defensores da ordem) e “eles” (os promotores do caos) e, a partir do momento, em que esses discursos se convertem em correntes de opinião hegemônicas, o bloco dominante “torna” a repressão necessária e legítima .

Outra característica que se apresenta em tais discursos é a de buscar construir um consenso em torno da ideia acerca de que a repressão poderia ser evitada pelos contestadores sociais, visto que o governo vinha fornecendo diversas demonstrações de que não permitiria mais os métodos piqueteiros. Mas, como já está claro, tudo isso é feito ocultando outras determinações, tais como a falta de dialogo e resolução concreta para o problema da fome, insalubridade, desnutrição infantil, desemprego, indigência e todas as diversas mazelas sociais que golpeou duramente o lumpemproletariado argentino. Nesse sentido, a luta digna contra todas essas mazelas é ocultada e transformada em meros atos de perturbação social sem outra finalidade que não a construção do caos. Assim, os discursos do bloco dominante preparavam o terreno para a construção do consenso em torno da repressão violenta que já estava sendo planejada.

Apesar dos discursos ameaçadores do bloco dominante (verdadeiras declarações de guerra naquele contexto) veiculados pelo capital comunicacional, o Bloco Piqueteiro Nacional seguiu com seus planos de mobilização e contestação para o dia 26 de junho de 2006, tendo como objetivo fundamental dar uma demonstração de força sitiando a capital federal. Desde as 11hs00min, piqueteiros das organizações que compunham o Bloco Piqueteiro Nacional se concentraram nos locais de acesso que comunicam Avellaneda com a capital federal. A jornada de mobilizações contava com o bloqueio de cinco pontes, na qual o bloqueio da Ponte Pueyrredón estava sob responsabilidade da Coordenadora Aníbal Verón, e, por isso, ali se encontravam um número maior de piqueteiros dessa Coordenadora, que é expressiva na zona sul do conurbano bonaerense. Desde mais cedo iniciava os bloqueios de diversas outras pontes que ligavam a capital à zona sul do conurbano (Pueyrredón, Alsina e La Noria), assim como os acessos que ligavam à zona oeste e norte (bairro de Liniers, Avenida General Paz e Panamericana). Apenas nos acessos sul da capital federal se mobilizou aproximadamente 20 mil piqueteiros, objetivando sitiar a cidade de Buenos Aires (Red Eco Alternativo, 2009; ARTESE, 2009, 2013).

Do lado do operativo repressivo, pela primeira vez em um bloqueio de estradas, atuaram em conjunto e de maneira imponente as três forças policiais federais: polícia federal, gendarmaria e prefectura (Grupo Albatroz[6]) e a polícia bonaerense. Mas, além da quantidade oficial de policiais que participaram do operativo repressivo, isto é, aproximadamente 2 mil efetivos das distintas forças policiais, o número exato era bem maior:

formaram parte da repressão efetivos que não figuraram nos relatórios oficiais, de uniforme ou vestido de civil, inclusive retirados (aposentados) da polícia convocados antecipadamente. Membros das delegacias 2ª e 3ª de Avellaneda estiveram presentes sem que ficassem registrados nas planilhas oficiais. Sua presença só foi reconhecida pelos chefes policiais diante da evidência televisiva e a denúncia dos manifestantes e advogados. É o caso do oficial subinspetor Vladimir Brezas, registro 37.703, quem de civil perseguiu manifestantes portando sua escopeta marca Batán número 7997, e dos sargentos Carlos Riveros e Ramón Romero, a quem posteriormente foram citados para perícia de suas armas. Todos eles pertencentes à delegacia 2ª de Avellaneda. Também da delegacia 3ª de Dock Sud figurou pessoal extra: o oficial subinspetor Marcelo Fiodomo foi visto no lugar uma vez iniciada a repressão. Outros reforços não foram reconhecidos ainda que ficaram devidamente documentados por investigações jornalísticas: é o caso do pessoal retirado (aposentado - LB) das forças repressivas, como Celestino Robledo, ex-agente Bonaerense, quem atuou como parapolicial e acompanhou seus antigos camaradas de força perseguindo e detendo manifestantes, inclusive portando uma arma regulamentada facilitada por um agente em atividade (MTD ANÍBAL VERÓN, 2012, p. 54).

Por volta das 11hs45min uma coluna de piqueteiros ocupou a descida da Ponte Pueyrredón, bloqueando a estrada e interrompendo o trânsito. Paulatinamente diversas estradas e ruas passaram a ser bloqueadas, causando um enorme congestionamento na região. Outras colunas piqueteiras se aproximavam da ponte chegando de distintos pontos até que a segunda coluna, avançando pela Avenida Mitre, se deparou com uma linha de infantaria comandada pelo comissário Franchiotti a 20 metros da ponte bloqueada. Um grupo de aproximadamente 10 policiais permaneceu no meio da avenida entre duas colunas piqueteiras, contrariando propositalmente ensinamentos básicos da infantaria, tal como o de garantir proteção à retaguarda. A coluna conduzida pela Coordenadora Aníbal Verón, emergida por detrás da linha policial, seguiu em direção ao grupo de policiais até se aproximar a um metro de distância. Estava armada a emboscada policial que levaria adiante, não às ordens de evitar o bloqueio dos acessos à capital, mas sim o verdadeiro plano estatal: eliminar o movimento piqueteiro com uma repressão brutal.

Naquele momento, o movimento piqueteiro não pôde perceber que a manutenção de um reduzido cordão policial no meio de duas gigantescas colunas piqueteiras fazia sim sentido, porém passado alguns dias, ao analisar o ocorrido, compreenderam que estavam diante de uma verdadeira emboscada que necessitava, para dar início ao massacre de avellaneda, somente de algumas provocações policiais, tais como essa de manter uma dezena de policiais no meio de duas grandes colunas:

os meios de comunicação insistiram que esses policiais foram agredidos. Não vou dizer que não, porém, que sentido preventivo tinha esse cordão posto ali? Observe que paradoxo: uma vez na base (da ponte), nós não subimos na ponte porque sabíamos que havia grande quantidade de tropas da Prefectura acima. Porém, estavam há 200 metros acima, ou seja tínhamos lugar para avançar pela ponte se quiséssemos. Esse espaço nos deixaram aberto, porém puseram um cordão da infantaria sobre Mitre (avenida), aonde não tinha razão de estar. Esse cordão policial adquire sentido somente se quem o ordenou sabia que iam ficar no meio de duas colunas de manifestantes, a nossa e a do Bloco. E isso eles sabiam mais que nós. Então, essa atitude da infantaria, desde o ponto de vista dos que buscavam provocar, não foi um erro. Certeza que não. Até agora falamos dos indícios que mostram como montaram as condições para reprimir. Primeiro, que nos deixaram chegar até a base da ponte. Segundo, que o cordão da infantaria estava localizado em um lugar absurdo, no meio de onde iam confluir duas colunas de manifestantes. O terceiro elemento é quem dirige os policiais desse cordão. Quando a coluna do bloco chega, parte do cordão da infantaria começa a se retirar. Porém Franchiotti, com Itaka (escopeta- LB) na mão, insiste aos seus subordinados para que fiquem, que resistam ali. É muito clara essa imagem nos vídeos: como na cabeça de alguns canas existia algum sentido, tenderam a correr para a calçada. Franchiotti se mantém ordenando a outros canas do cordão para que permaneçam onde estavam. Alí se dão os primeiros atritos, o que se vê bem nas filmagens da tv são empurrões y bastonadas, até que fazem soar os primeiros gases e tiros de escopeta. Era o lugar mais inteligente para montar uma provocação. Estavam todas as câmeras de televisão e, como eram poucos nesse cordão da infantaria, ficaram facilmente como vítimas -Declaração de militantes piqueteiros (MTD ANÍBAL VERÓN, 2012, p. 61-62).





Figura 16– Cordão policial mantido no meio de duas colunas piqueteiras sob ordens do comissário Franchiotti.

Assim que as forças repressivas obtiveram o que desejavam, isto é, a reação piqueteira[7] às provocações armadas, iniciou-se o massacre de avellaneda. Diversas filmagens e documentários realizados por vários meios alternativos de comunicação apresentam claramente como se deu essa selvageria repressiva que não mediu esforços para fuzilar, espancar e torturar centenas de piqueteiros (ALAVÍO, 2002a; ESCOBAR e FINVARB, 2007).

Ao iniciar a repressão com bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e tiros com armas de fogo, os piqueteiros se dispersaram e iniciaram a retirada da região, ficando impossibilitados de levar adiante os planos de bloquear os cinco pontos de acesso à capital federal. No entanto, a repressão não se deteve, pelo contrário, pois, a partir daí, iniciava-se uma verdadeira caçada aos piqueteiros pelas avenidas e ruas próximas a Ponte Pueyrredón, marcadas por uma perseguição policial acompanhada de uma grande quantidade de disparos efetuados pelas forças repressivas, vindos de todos os lados, inclusive de francoatiradores postados em alguns prédios da região. Quantidade expressiva desses disparos equivaliam a disparos com armas de fogo e uma das provas mais contundentes do uso constante de tais armas, além dos feridos e mortos, foram os inúmeros registros (fotos e filmagens) da constante preocupação de diversos policiais em resgatarem seus cartuchos de chumbo no asfalto para não deixarem provas. Os documentários que registraram esses momentos demonstram a magnitude da violência repressiva estatal utilizada no massacre de avellanda (ALAVÍO, 2002a; ESCOBAR e FINVARB, 2007).

Mario Pérez, ao que tudo indica, foi o primeiro piqueteiro a receber o impacto de uma arma de fogo nas duas pernas, ao longo da avenida avellaneda. Logo em seguida, Aurora Cividino, membro da Assembleia de San Telmo, também foi baleada pelas costas, tendo o fêmur esquerdo fraturado e outra bala alojada na coxa direita. Cem metros à frente de onde Aurora foi baleada, aproximadamente 200 piqueteiros faziam frente, com paus e pedras lançadas por estilingues, ao avanço das tropas bonaerenses e da prefectura, com o objetivo de retardar o avanço repressivo e melhor organizar a retirada. Entre os piqueteiros que resistiam ao avanço das tropas encontrava-se Maximiliano Kosteki, Miguel Ángel e Carlos Romeo em frente ao supermercado Carrefour. Um tiro de escopeta atinge o três piqueteiros e feri fatalmente Maximiliano Kosteki, deixando os demais feridos nas pernas e ombros. As imagens transmitidas pelo canal de notícias Crónica TV mostra o momento exato em que Maxi é fuzilado no peito, eram 12hs42min, isto é, haviam passado 40 minutos do início da repressão e as tropas davam sinais de que a repressão estava longe de terminar. Socorrido por alguns companheiros Maxi foi levado até a estação avellaneda onde faleceu (MTD ANÍBAL VERÓN, 2012).

Aproximadamente a 20 quadras da Ponte Pueyrredón, na Avenida Pavón, Juan Arredondo é atingido por dois tiros, um nas nádegas e outro no tornozelo. Impossibilitado de seguir fugindo, acabou capturado e levado para a 1ª delegacia de Avellaneda, na qual ficou por aproximadamente 04hs00min perdendo sangue até ser transferido para um hospital. Não era a primeira vez que Juan havia sido baleado por participar de uma contestação social, pois há alguns meses atrás teve seu pulmão perfurado por uma bala de 09 milímetros disparada por um agente penintenciário em um protesto realizado pelo MTD de Lanús contra o atraso no pagamento dos subsídios sociais.

Logo após iniciada a repressão, as tropas que se encontravam na Avenida Mitre também dispararam diversas vezes com armas de fogo contra os piqueteiros. Uma das primeiras vítimas foi Leonardo Torales, de 17 anos, que teve seu pulmão perfurado por uma bala. Leticia Vasarhelyi, uma médica que costumava acompanhar as manifestações piqueteiras para prestar os primeiros socorros às vítimas da repressão, ao auxiliar o jovem, também foi atingida por balas de borracha. Leonardo permaneceu 35 dias internato na UTI. As forças repressivas que atuavam nessa avenida eram coordenadas pelo sargento aposentado da polícia bonaerense, Carlos Leiva, que foi flagrado à paisana atirando com arma de fogo contra militantes piqueteiros por diversas fotos e filmagens realizadas pelos próprios piqueteiros e por profissionais de meios alternativos de comunicação (ALAVÍO, 2002a; MTD ANÍBAL VERÓN, 2012).

As forças repressivas coordenadas por Carlos Leiva foi responsável por perseguir, com camionetes e outros carros patrulhas, diversos grupos de piqueteiros por várias quadras até a Praça Alsina. Nesse percurso, um coletivo foi incendiado em uma localidade onde já não existiam manifestantes, o que nos leva a crer que suas tropas o fizeram com o intuito de criminalizar o movimento piqueteiro e justificar a violência repressiva. As tropas de Leiva e ele próprio foram responsáveis por atirar com arma de fogo contra diversos piqueteiros. As imagens desses recolhendo cartuchos vermelhos, próprios de arma de fogo no asfalto, confirmam os disparos com o intuito de ferir gravemente e matar. Sergio Insauralde foi uma das vítimas dos disparos efetuados por Leiva, que atravessaram sua bochecha direita. Héctor Alvarez foi outra vítima dessas tropas, ao ser baleado no lado direito do peito e, ao final do dia, foi internato em uma UTI. Fugindo da selvagem perseguição comandada por Carlos Leiva pela Avenida Mitre, aproximadamente 50 militantes piqueteiros buscaram refúgio na sede do Partido Comunista, localizado na Rua Brandsen, número 1.200. Contudo, algumas camionetes dirigidas pelas tropas de Leiva chegaram ao local e arrombaram a porta de entrada da sede com diversos tiros que feriram os militantes que tentavam reforçar a porta com seus próprios corpos para impossibilitar o ingresso dos repressores. Após diversos disparos, a porta foi arrombada (imagem registrada por Pablo Piovano, do jornal Página 12) e a sede invadida pelas forças repressivas que no seu interior seguiram disparando contra os piqueteiros. Uma das vítimas foi Mariano Benítez que ao demorar em seguir a ordem repressiva de deitar no chão com as mãos na nuca, recebeu um disparo de bala de borracha na cabeça quando buscava um lugar no piso cheio de militantes já rendidos, o que lhe causou uma enorme queimadura e ferida, sendo levado desmaiado para o hospital. As casas vizinhas à sede também foram invadidas e seus moradores ficaram sob a mira das escopetas policiais. A repressão na sede do Partido Comunista só não foi maior porque os deputados Luis Zamora e Vilma Ripoll expulsaram aos gritos e empurrões os policiais para fora da sede, e em seguida fugiram em suas camionetes, recebendo pedradas dos piqueteiros que se aproximaram do local para reforçar a resistência.

Do lado de fora da estação avellaneda se aproximava as tropas comandas pelo comissário Franchiotti que permanentemente disparavam com armas de fogo (pistolas e escopetas) contra os piqueteiros que escapavam pela Avenida Pavón. A 60 metros da estação, o fotógrafo Sergio Kowalewski procurou dialogar com o comissário Franchiotti, objetivando freiar a brutalidade do operativo repressivo: “Parem, não estão vendo que as pessoas estão indo embora? Parem, pois vão promover um massacre”, advertiu severamente a Franchiotti, que lhe retrucou, “vejam o que me fizeram”, mostrando um arranhão no pescoço, porém Sergio insistia, “mas vocês promoverão um massacre, não estão vendo que eles estão com paus e pedras e vocês com ferro (arma)?”. Outro policial se aproximou para defender Franchiotti e lhe advertiu: “Se não gosta, vá para o outro lado”, deixando subentendido que poderiam atirar em Sergio também.

As duas vítimas fatais da selvageria policial foram Maximiliano Kosteki e Darío Santillán, dois jovens e aguerridos militantes piqueteiros[8]. Após ser fuzilado no estômago, Maxi foi levado ainda vivo por alguns companheiros até a Estação Avellaneda onde agonizou até a morte. Na intenção de auxiliá-lo e chamar uma ambulância Hector Fernández se manteve na estação. Logo depois chegou Darío Santillán, que ao saber da existência de um companheiro (que ainda não o conhecia) ferido na estação, regressou para ajuda-lo. Ali se encontravam diversos piqueteiros que assustados com a magnitude da repressão buscavam se proteger das tentativas de fuzilamento policial. Darío, apesar de sua juventude, possuía uma significativa experiência militante e por isso aconselhava os demais a fugirem e insistia em ficar para socorrer Maxi. Aos gritos dizia: “Vão, corram, fujam. Eu fico, mas vocês saiam, saiam”. Muitos saíram e conseguiram subir no primeiro trem que partia. Logo em seguida se escutam disparos efetuados contra a estação avellaneda, era o início do plano estatal que consistia em simular um enfrentamento entre distintos grupos piqueteiros, o que reforçava a corrente de opinião que os relacionava à delinquência e violência. Darío se manteve agachado ao lado do corpo de Kosteki, conferindo seus pulsos, quando ingressam à estação o cabo Acosta e o comissário Franchiotti com o intuito claro de assassinar alguns piqueteiros, nesse caso Darío Santillán é quem foi fuzilado, para logo depois retirá-los da estação com a explicação de que se “mataram entre eles”:

Darío percorreu cinco metros desde que se levantou e buscou a saída até que lhe atiraram com escopeta pelas costas. Havia atravessado as portas que dividem o hall do pátio da estação; havia passado também por Franchiotti, que em sua corrida atrás de outro rapaz demorou pegando outros cartuchos no bolso do seu casaco. Acosta havia empreendido a perseguição seguindo seus passos. O cabo e o comissário levavam munição de guerra (prova disso foi a preocupação em resgatar seus cartuchos no chão, registrada em diversas ocasiões, durante toda a caçada repressiva - LB) e os dois ficaram na linha de tiro quando Darío caiu ferido de morte. Ao escutar um novo estampido e dirigir o olhar, Sergio Kowalewski viu apontando, em primeiro lugar, o comissário. Pepe Mateos, fotógrafo do jornal Clarín, quem segundos antes havia retratado o ingresso dos policiais no Hall, não teve ângulo suficiente para ver o momento em que se efetuou o disparo. Caminhou até o pátio quando escutou a detonação e então viu Darío caído tentando seus últimos movimentos [...] os policiais se aproximaram do corpo agonizante: “a polícia o tratou de uma forma brutal. Os policiais o pegavam e diziam ‘pare’, o chutavam. O comissário, que eu não sabia quem era também estava quando o levaram para fora. Vi uma selvageria na forma em que trataram Santillán (MTD, ANÍBAL VERÓN, 2012, p. 79-80).

Outros 30 militantes piqueteiros foram feridos por armas de fogo pelas costas enquanto buscavam fugir e resistir à selvageria repressiva, aproximadamente 160 militantes foram feridos com balas de borrachas. Levando em conta que diversos deles foram atingidos por armas de fogo em regiões vitais, tais como peito e cabeça, o número de mortos poderia ter ultrapassado mais de 15 piqueteiros. Deve-se levar em conta, como ressaltou o MTD Aníbal Verón, que o número de militantes feridos foi muito maior que o apresentado, pois diversos deles, temendo represália e torturas, não recorreram aos hospitais para serem atendidos. Quase 200 pessoas foram detidas, acusadas de atentarem contra o patrimônio público e privado, acusadas de praticarem atentados e de resistirem à autoridade. Outros tantos militantes que foram detidos pela repressão denunciaram a prática de torturas físicas e psicológicas, incluindo a simulação de fuzilamentos, e outros tipos de violência, tal como serem amontoados em celas superlotadas, com mulheres grávidas e outras pessoas dependentes de medicação que eram negadas pelos policiais etc. (ARTESE, 2009).







Figura 19, 20 e 21– Imagens do fuzilamento de Darío Santillán na Estação Avellaneda, com destaque para os responsáveis (Acosta e Franchiotti) e a utilização de cartuchos vermelho (arma de fogo)[9].

No dia seguinte, o bloco dominante iniciava a tarefa de “reconstruir” ideologemicamente o massacre de avellaneda com vistas a reforçar a corrente de opinião produzida pelas forças repressivas e reproduzidas por esse bloco social. Tal corrente de opinião, que buscava tornar-se hegemônica, relacionava os piqueteiros à delinquência, vandalismo e outros atos violentos, bem como os associava com diversos inimigos imaginários, tais como subversivos de esquerda, guerrilheiros estrangeiros, traficantes de drogas, terroristas, revolucionários, comunistas etc. Tudo isso com o objetivo de formar um consenso em torno da necessidade de reprimi-los, inclusive violentamente.

Desde os primeiros instantes após o massacre de avellaneda, as forças policiais produziram um discurso ideologêmico, fundamentalmente, ocultar a realidade do acionar massacrante das forças repressivas, transferindo a responsabilidade pelas mortes aos próprios piqueteiros: os duros, delinquentes, violentos etc. Para essas ocasiões serviam essas constantes referências negativas aos piqueteiros, quer dizer a construção de uma corrente de opinião que insistentemente os relaciona à violência facilitava a aceitação de discursos ideologêmicos criminalizadores da contestação social piqueteira, seus métodos violentos e perigosos, seus grupos delinquentes etc.

No dia 27 de junho de 2002, a totalidade das empresas capitalistas de comunicação reproduziu o discurso infame do comissário Franchiotti, responsável por coordenar o operativo que resultou no Massacre de Avellaneda e autor do disparo que assassinou Darío Santillán. Vejamos seu discurso e quanta canalhice:

“Na estação, lugar que nós nunca entramos [...] Nós só portamos gases e balas de borracha [...] A gente que estava dentro da estação nos reclamava. Tinha entrado um grupo muito importante, se sentiam disparos de arma de fogo em direção a um dos trens que passava. A gente que estava ai e que pudemos fazer contato e estabelecer um dialogo nos comentava que haviam disparado para o trem, que havia tiroteios ali dentro ... Ficaram alguns grupos, por isso atiramos alguns gases. Os gases entraram na estação, ai tivemos que sair e tiramos um montão de gente que nos pedia auxílio porque havia mulheres com crianças, grávidas e outros que estavam tirados no piso e tivemos que retirá-los para o lado da Pavón ... para evitar que pudesse lhes acontecer algo. (Então) eu vejo um dos piqueteiros que acontece que termina sendo esse rapaz Santillán. Lhe pergunto o que havia acontecido, ele retirou o pano que tinha no rosto e me disse que haviam dado um tiro em suas costas. Lhe digo: ‘Consegue levantar? Vou te levar ao hospital. Tenta levantar, tenta, lhe disse’. Tentei levantá-lo sozinho e não consegui, era bastante pesado. Então recorri ao auxílio de outros policiais” (MTD ANÍBAL VERÓN, 2012).

Tal discurso é o primeiro de diversos outros discursos capciosos, fundamentados em inverdades que buscaram ocultar a realidade (o fuzilamento policial) e confundir a sociedade. Nesse sentido, até ser desmascarado pelas evidências de outras provas e fontes que surgiram 48 horas após o massacre, o capital comunicacional agiu com o objetivo claro de transferir toda a responsabilidade pela violência aos próprios piqueteiros, ou melhor, aos inimigos imaginários que se construíram com o intuito de camuflar uma ofensiva de classe, apresentando-a como uma ofensiva contra grupos infiltrados perigosos, os “verdadeiros responsáveis pelos episódios de violência” etc. As primeiras explicações do bloco dominante para o massacre era que “os piqueteiros haviam se matado entre eles”, que “haviam grupos infiltrados organizados, armados e violentos” (inimigo imaginário). Nos discursos jornalísticos, essa posição ideologêmica se reforçava com a apresentação seletiva e parcial da realidade que reproduzia o cinismo degenerado do discurso de Franchiotti, que insistia em apresentar os piqueteiros como armados e violentos, da existência de grupos infiltrados etc.:

“Os piqueteiros que estão dispostos a resistir estão avançando contra a polícia, estão avançando contra a polícia nesse momento” (Azul TV, 26/06/2002).

“HÁ DISPAROS DE ARMAS DE FOGO” (chamada do noticiário), “o certo é que a região ficou cheia de automóveis destruídos com a passagem dos manifestantes furiosos e à polícia não restou nenhuma margem de ação”, “havia muitos piqueteiros que estavam com pedras, que estavam com estilingues, dispostos a levar à cabo o enfrentamento” (Azul TV, 26/06/2002).

“A polícia estava com uma equipe antidistúrbios e foi tremendamente agredida e isso está claramente visto na televisão” (Juan José Alvárez, America TV, 26/06/2002).

“o governo da província de Buenos Aires assegura que os piqueteiros foram responsáveis pelos incidentes e que portavam armas de grosso calibre como escopetas” (Azul TV, 26/06/2002

O GOVERNO GARANTE QUE FORAM INFILTRADOS - Sob suspeita dois grupos piqueteiros [...] DOIS MORTOS NO ENFRENTAMENTO DE PIQUETEIROS COM A POLÍCIA – Grupos radicalizados de esquerda destruíram negócios e queimaram automóveis e coletivos : “O chefe do operativo de segurança na ponte, comissário Alfredo Franchiotti, assegurou que suas forças não portavam projéteis de chumbo e acusou os piqueteiros de disparar com armas de fogo [...] Essa gente vinha com toda a intenção de lutar conosco ... Com paus, armada, com panos cobrindo suas caras. Não digo que se tratava de um exército, porém é gente que vinha combater, logo assinalou o comissário Franchiotti” (La Nación, 27/06/2002).



CAOS DEBAIXO DA PONTE – “Enrique Pini, um vizinho de Avellaneda que se apresentou para declarar após o ocorrido, relatou a La Nación que viu como dois piqueteiros carregavam armas de fogo pela estrada durante sua fuga” [...] Um coletivo que passava pelo lugar denunciou na 1ª Delegacia de Avellaneda que outro grupo de encapuzados o assaltou com escopetas Itaka e pistolas automáticas pouco antes do enfrentamento. Logo incendiaram o coletivo com bombas molotov. O relato foi difundido pelo chefe do operativo, que tinha uma ferida no olho esquerdo. Um piqueteiro o golpeou selvagemente pelas costas enquanto declarava à imprensa no hospital fiorito, para onde tinha sido levada as vítimas” (La Nación, 27/

DO PIQUETE À TRAGÉDIA – “Era de supor que as tensões que desatam os atos ilícitos como os bloqueios de caminho por organizações de piqueteiros iam provocar algum dia um trágico saldo como o produzido ontem em Avellaneda [...] O mecanismo de protesto dos piqueteiros, lamentavelmente se extendeu de ponta a ponta o território nacional viola preceitos constitucionais, tais como os que garantem os direitos de trabalhar e transitar livremente por nosso solo, à margem de ocasionar severos prejuízos econômicos ao impedir a passagem de distintos meios de transporte de passageiros e de carga, que não podem chegar a tempo a seus destinos. Se a isso se acrescenta que quem organiza os piquetes vão armados, no mínimo com paus e outros objetos contundentes, não é necessário abundar em detalhes para conceber essas manifestações como autênticos atos de violência” (La Nación, 27/06/2002).

SE SABIA QUE OS PIQUETEIROS TINHAM ARMAS – “O governo bonaerense, por sua parte, acredita que os atos de violência protagonizados pela polícia provincial e os piqueteros “foram preparados por grupos de infiltrados para semear o caos no país” (La Nación, 28/06/2002).

“[...] os pescadores em rios revoltosos que aspiram conduzir o conflito social com uma dose maior de violência. É provável que à luz dos fatos sucedidos ontem, esse último grupo (os duros, violentos) tenha tido uma maior participação [...] Não se deve descartar que esse nível de desordem e rebeldia tenha sido gerados pelas diferenças suscitadas em distintas agrupações que convocaram os atos de protesta ontem, frente à advertência oficial de que as forças de segurança não permitiria os bloqueios de caminhos” (La Nación, 27/06/2002).



Os primeiros discursos veiculados no capital comunicacional são objetivos e enfáticos no momento em que informam seletivamente o que está ocorrendo na Ponte Pueyrredón: os piqueteiros dispostos a resistir avançam contra a polícia, estão avançando contra a polícia (violentos); o certo é que na passagem dos piqueteiros houve muita destruição (violência e delinquência); há armas de fogo (dos piqueteiros?); armados com estilingue e pedras dispostos ao enfrentamento (violentos); a polícia foi tremendamente agredida (piqueteros violentos, polícia passiva); responsáveis pelos incidentes e fortemente armados (reforça a tendência de que estão armados e, portanto são violentos); já se sabia da preparação piqueteira para uma luta armada e seu cronograma de hostilidades. Percebe-se que no discurso jornalístico os piqueteiros são sempre os agentes da ação violenta, enquanto a polícia apenas sofre seu acionar.

No plano estatal era assim mesmo que as coisas deveriam parecer, isto é, uma pequena quantidade de policiais cercados por uma multidão de piqueteiros agressivos. Porém, estando no local dos acontecimentos os jornalistas sabiam quem realmente portavam armas de fogo e disparavam contra os piqueteiros, isto é, a força repressiva, mas ao noticiar a realidade com a chamada “HÁ DISPAROS COM ARMAS DE FOGO”; SE SABIA QUE OS PIQUETEIROS TINHAM ARMAS acompanhada de discursos que informam sobre a violência piqueteira, permite transparecer a informação segundo a qual os piqueteiros são os possíveis responsáveis pelos disparos, já que são eles os violentos. Dessa maneira, vai se construindo uma corrente de opinião que acredita de fato que são os piqueteiros (duros) os responsáveis pela violência em Avellaneda e, por outro lado, livram o aparato repressivo estatal da responsabilidade pelos seus crimes terroristas (torturas, simulacros de fuzilamento, ameaças de morte, fuzilamentos, assassinatos etc.).

Os discursos dos jornais impressos reiteravam essa mesma versão dos acontecimentos e acrescentavam enfaticamente a presença de inimigos imaginários na mobilização, responsáveis por elevar o grau de violência contra as forças repressivas estatais: O GOVERNO GARANTE QUE FORAM INFILTRADOS e as suspeitas, como não poderia deixar de ser, são dois grupos piqueteiros (os duros e violentos) com posturas radicalizadas de esquerda, o que no pensamento axiológico se apresenta como algo extremamente negativo e ameaçador. O caráter ideologêmico dos discursos é flagrante e se apoia em mentiras deliberadas, tais como a de portar armas de fogo e dizer que não as portava, tal como fez Franchiotti, que ainda insistia em dizer que os disparos viam dos piqueteiros, que se demonstavam dispostos a combater.

Diversos outros discursos ideologêmicos foram veiculados no capital comunicacional buscando explicar as mortes de Darío e Maxi desvinculadas do acionar repressivo estatal. Quantitativamente[10] e qualitativamente tais discursos expressaram os interesses hegemônicos no interior do bloco dominante e se manifestaram através do pronunciamento de diversos burocratas que, uma vez mais, se fundamentava no suposto caráter vandálico e delitivo das organizações piqueteiras para criminalizá-las e responsabilizá-las pelos assassinatos, apresentados como fruto de uma richa interna (ARTESE, 2013).

“Houve casos, como o que denunciou o motorista de um coletivo, de homens que levavam bombas molotov, escopetas e armas. Que não são parte dos que habitualmente se manifestam” (Juan José Álvarez, Secretário de Segurança, La Nación, 27/06/2002).

“Os piqueteiros se mataram entre eles” (Felipe Solá, governador de Buenos Aires, Página 12, 30/06/2002).

“A metodología utilizada por alguns grupos não encontra justificativa e se torna perigosa. A estratégia de bloquear as estradas e ruas de maneira sistemática supõe uma violência intrínseca que gera reações nos setores da população diretamente afetada por seus operativos. Mas, aliás, é notório o acionar, no marco de grandes colunas de manifestantes pacíficos, de grupos minoritários –geralmente atuam com os rostos cobertos e armados, pelo menos com paus e pedras- que sustentam uma atitude de beligerância e promovem, em determinadas circunstâncias, uma alta voltagem de violência” (Raúl Kraiselburd, diretor do Jornal, El Día, 28/06/2002).

O que está claro é que o bloco dominante não tem nenhum compromisso com a verdade, mas sim com seus interesses de classes que para serem garantidos nessa conjuntura, dependia do fim da contestação social piqueteira e isso é o que mais importava e justificava a fórmula: repressão violenta, discurso ideologêmico/invenção de inimigos imaginários e outras inverdades grotescas. O discurso do secretário de segurança oculta uma verdade para apresentar uma inverdade, pois os homens que foram vistos na mobilização com bombas molotov, escopetas e armas, e que incendiaram o coletivo eram policiais travestidos de piqueteiros, com o claro objetivo de criminalizar as ações piqueteiras, inventando um inimigo imaginário potencial para transferir a responsabilidade pelas mortes e outras brutalidades que o operativo repressivo seguramente geraria.

A afirmação objetiva do governador de Buenos Aires e de outros burocratas governamentais, de que os piqueteiros se mataram entre eles, apenas demonstra a vileza utilizada para criminalizar a qualquer custo os contestadores radicais, pois o que não faltava para os piqueteiros, caso a disposição fosse para fuzilar alguém, eram alvos policiais de todas as cores e por todos os lados para apontar. E com certeza teríamos Franchiotti, Carlos Leiva e Acosta como vítima da suposta violência de piqueteiros armados e não Darío e Maxi.

A maneira como o operativo repressivo realmente procedeu e a forma como o bloco dominante o apresentou, através do trabalho conjunto no interior do capital comunicacional, demonstrava que havia um planejamento prévio, uma forma determinada para proceder: reprimir brutalmente com uma imensa quantidade de forças policiais, inclusive à paisana, autorizada a atirar para matar, construir uma corrente de opinião que confunda a sociedade e a faça acreditar na existência da violência piqueteira e, posteriormente, responsabilizar o movimento piqueteiro (os grupos radicalizados e duros) pelas mortes ocorridas. Para isso, setores do bloco dominante em conjunto (capital comunicacional, burocracia, intelectualidade etc.) e as forças repressivas precisaram agir de forma extremamente planejada e com diversas ações criminosas.

Vários indícios apontam para a existência de uma planificação com vistas a ampliar a magnitude e brutalidade repressiva, assim como transferir as responsabilidades para determinados setores piqueteiros (os duros e violentos, com agentes externos infiltrados) etc.: a) a existência de policiais à paisana, não identificados como força repressiva e por isso ampliando a potencialidade da repressão e da situação de vulnerabilidade dos manifestantes. Vários policiais e suas armas não figuraram nos registros oficiais, contrariandos as normativas de segurança; b) Denúncias da existência de uma patrulha policial que destruía diversos vidros de carros, para posteriormente acusar o movimento piqueteiro, assim como a suspeita de que policiais vestidos de piqueteiros teriam incendiado um coletivo durante a mobilização; c) A existência de policiais vestidos como piqueteiros infiltrados na manifestação portando armas (as mesmas utilizadas pela polícia, para que não tenhamos mais nenhuma dúvida – pistolas 09 mm e escopetas/itakas) e atirando, tudo isso com o intuito de confundir a população e transferir a responsabilidade das mortes aos próprios piqueteiros e suas disputas (violentas) internas. Patrícia Walsh, deputada da cidade de Buenos Aires (MST), afirmou ter visto um homem “vestido de piqueteiro conversando de forma familiar com (policiais) uniformizados” (Página 12, 11/07/2002); d) Denúncias de policiais à paisana em ação conjunta com outros fardados, em automóveis sem placas detendo manifestantes, invadindo residências e prendendo diversas pessoas; e) Prática de torturas e simulacro de fuzilamentos nas delegacias; f) Diversas ameaças foram realizadas contra amigos e familiares das vítimas fuziladas em Avellaneda, assim como do advogado Claudio Pandolfi da CORREPI – Coordenadora Contra a Repressão Policial e Institucional - e do fotógrafo Sergio Kowalewski, responsável pelas fotos dos policiais atirando contra Santillán na estação de Avellaneda; g) Inúmeros policiais foram registrados capturando seus cartuchos de chumbo no asfalto para não deixar provas do uso de armas de fogo etc. (ANÍBAL VERÓN, 2012; ARTESE, 2009, 2013).

A segunda parte do plano estatal era a de reproduzir os discursos ideologêmicos no capital comunicacional, com vistas a garantir a construção de uma corrente de opinião hegemônica em torno da versão oficial: “os piqueteiros se mataram entre eles”; “os piqueteiros são violentos, delinquentes, grupos exóticos (infiltrados) e usam armas de fogo” etc. Segundo Laura Vales, jornalista do Página 12, durante todo o dia 27 de junho de 2006 “houve uma pressão muito forte para que comunicasse a realidade de que os piqueteiros haviam se matado entre eles, uma pressão desde o governo de Duhalde, muito forte para que saísse isso” (ESCOBAR e FINVARB, 2007, 25min53seg). Sem dúvida, foram essas as notícias que a maioria dos jornais nacionais veiculara no dia 27 de junho, como demonstramos acima.

Os discursos veiculados pelo capital comunicacional e que são expressão do bloco dominante carregam implícita e explicitamente a informação segundo a qual alguns setores piqueteiros constituem um grupo social violento, constituído por elementos externos infiltrados (guerrilheiros e traficantes de outros países), preparados para uma luta armada, dispostos a derrubar os poderes constituídos (revolucionários comunistas) e implantarem o caos. Dessa maneira se constrói inimigos imaginários que legitimam a repressão, visto que passam a representar uma ameaça a toda sociedade. De militantes lumpemproletários que lutam contra a regularização da vida miserável se tornam perigosos inimigos, muitas vezes estrangeiros, da nação.

Nesse sentido, reafirmamos que não existe repressão estatal eficaz sem posicionamentos ideologêmicos eficazes do capital comunicacional (Red Eco Alternativo, 2009). Contudo, naquela cirscunstância específica, na qual os acontecimentos eram registrados por diversas pessoas não vinculadas ao capital comunicacional, inclusive jornalistas independentes, o bloco dominante não conseguiu promover a corrente de opinião que apontavam os piqueteiros como os responsáveis pelas ondas de violência e pelas mortes, pois no dia 28/06/2002 centenas de jornalistas e fotógrafos independentes que cobriram o operativo repressivo contra o movimento piqueteiro, disponibilizariam as imagens (fotos e filmagens) do envolvimento da polícia nos atos de violência e nas mortes dos dois piqueteiros e, consequentemente, de toda a sinistra armadilha estatal.

Sem sombra de dúvidas, a maior demonstração dos estreitos e inescrupulosos vínculos existentes entre discurso jornalístico (ideologêmico), burguesia e poder estatal na Argentina foi fornecida pelo posicionamento mesquinho do Jornal Clarín, diante dos episódios de imensa brutalidade repressiva como o que resultou no Massacre de Avellaneda. No momento em que Franchiotti e dois de seus homens ingressaram na estação Avellaneda e fuzilaram Darío Santillán pelas costas, estavam presentes no hall da estação o fotógrafo independente Sergio Kowalewski e o fotógrafo do Jornal Clarín Jose Mateos. Ambos registraram, em uma sequência de fotos, o momento em que Darío foi fuzilado. Desde as 18hs00min do dia 26 de junho a sequência de fotos registradas por Jorge Mateos estava à disposição da equipe de redação do Jornal Clarín que, como se soube posteriormente, optou por não publicá-las. Pelo contrário, demonstrou concretamente o quanto de cinismo e sicofantia o discurso do capital comunicacional pode comportar para garantir o poder burguês. A forma como foi construído o editoral do dia 27 de junho de 2002 é prova cabal disso. Em sua capa, destacado em letras maiúsculas e negrito, trazia a seguinte manchete:

“A CRISE CAUSOU 2 NOVAS MORTES – Não se sabe ainda quem disparou contra os piqueteiros” (Clarín, 27/06/2002).

Em outros títulos e seus respectivos discursos pode-se ler:

Outra vez a violência [...] UMA ESCALADA DE VIOLÊNCIA QUE TORNA MAIS FRÁGIL A DEMOCRACIA – “De fato o grande responsável é o Estado, através do Governo nacional e nesse caso também do Governo bonaerense. Porque é o Estado que deve assegurar o cumprimento da lei e a vigência das garantias para os cidadãos. Nesse caso, estamos frente a um estado ineficiente para controlar os grupos violentos e antidemocráticos [...]” (Clarín, 27/06/2002).



Outra vez a violência [...] CENAS DE VIOLÊNCIA E MORTE EM AVELLANEDA, À MARGEM DO RIACHULEO – A Aníbal Verón, o setor dos piqueteiros duros.

“O movimento – que usa o nome do piqueteiro morto em Tartagal, Salta, em novembro de 2000 – iniciou seus protestos há um ano e meio; e se envolve no setor piqueteiro mais radicalizado” (Clarín, 27/06/2002).



Outra vez a violência [...] HOUVE DOIS MORTOS E MAIS DE VINTE FERIDOS – “Até bem tarde da noite não havia informações sobre as circunstâncias em que se produziram as mortes. Só se sabe que os dois jovens morreram por impactos de bala, na estação de trem de Avellaneda” (Clarín, 27/06/2002).



A CRISE, A VIOLÊNCIA E AS POLÍTICAS PÚBLICAS – “Segundo a informação disponível até o momento, durante o dia de ontem não se desenvolveram somente as ações habituais dos piqueteiros, senão também atos de vandalismo, delitos comuns e agressões à pessoas. Os protagonistas desses atos podem ter sido pessoas pertencentes aos grupos piqueteiros ou outros cujo objetivo era criar o caos com fins basicamente políticos [...] Por uma parte, o desenvolvimento ou consolidação de grupos cujo propósito e metodologia excedem largamente ao dos piqueteiros. De fato, na maioria dos piquetes e em suas mobilizações participam mulheres e crianças, enquanto ontem umas e outras estavam ausentes e algumas colunas estavam encabeçadas por pessoas providas de paus, o que demonstra uma disposição ao enfrentamento. Quer dizer que, a violência pode ter sido, mais que uma consequência das tensões criadas nesse tipo de situações ou de um mal proceder policial, um ato buscado” (Clarín, 27/06/2002).



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Figura 23– Capa da edição do jornal Clarín do dia 27 de junho de 2002, um dia após o Massacre de Avellaneda.

O conjunto discursivo, que compôs as matérias veiculadas pelo Clarín sobre o massacre de avellaneda, não deixa margens para dúvidas quanto aos propósitos fundamentais da edição do dia 27 de junho de 2002: ocultar a realidade do Massacre de Avellaneda, ludibriar a opinião dos leitores e forçar uma corrente de opinião favorável ao poder. Começando pelo título canalha de sua manchete na capa, que não era lá uma grande novidade uma vez que na edição de 13 de abril de 1997 também havia responsabilizado uma entidade metafísica (a crise) pela morte de Teresa Rodríguez em Cutral-Có, está clara a intenção de ocultar a realidade da brutalidade repressiva estatal com um discurso metafísico que apresenta a crise como a responsável pelas mortes. Ora bolas, quem de fato apertou o gatilho (extremamente fácil) das armas de fogo/escopetas durante toda a repressão estatal? Quem realmente se encontrava armado no interior da estação Avellaneda no momento em que Jose Mateos (fotógrafo do Clarín) capturou a sequência de fotos do fuzilamento de Darío Santillán? Por que razões tais sequências de fotos foram ocultadas na primeira edição sobre o Massacre de Avellaneda, visto que o Clarín já as possuía desde as 18hs00min do dia 26 de junho? Outras perguntas também são instigantes: Por que razões o Clarín enviou seus jornalistas somente após o término do operativo repressivo, quando só existiam as manchas de sangue na estação? Não estaríamos diante de uma renúncia explícita em cobrir acontecimentos extremamente relevantes para a sociedade?

A verdade é que o jornal Clarín deliberadamente ocultou a responsabilidade da repressão policial pelas mortes dos dois piqueteiros e insinuou, durante todos os discursos veiculados naquela edição, que o movimento piqueteiro especialmente os setores apresentados como duros, mais radicalizados, violentos e antidemocráticos, eram os responsáveis pela escalada de violência. A forma como o Clarín realizou esse processo de criminalização contou com a estratégia discursiva de implicitamente afastar a responsabilidade pelas mortes do aparato policial, alegando ser a crise a responsável pelas mesmas, deixando “livre” para intepretações (não se sabe ainda quem disparou; só se sabe que os dois jovens morreram por impactos de bala), e, ao mesmo tempo, fornecendo explicitamente elementos que induzam a uma interpretação extremamente parcial de que foram os próprios piqueteiros, que por isso eram constantemente apresentados como violentos e antidemocráticos, a Aníbal Verón – o setor dos piqueteiros duros, setor piqueteiro mais radicalizado, caóticos, vândalos, delinquentes, agressores, armados e dispostos ao enfrentamento (e outras inúmeras caracterizações negativas, apresentadas sistematicamente pelo capital comunicacional), e que de forma deliberada tais setores buscavam a morte de alguns piqueteiros para poder tirar proveito político dessa situação.

Até mesmo algumas agrupações piqueteiras, com postura mais conservadora, moderada e em constantes negociações com o governo de Duhalde, apresentavam discursos criminalizadores das organizações piqueteiras mais combativas e com tendências anticapitalistas:

Capciosamente D’Elía (dirigente da organização piqueteira moderada FTV) expressou que “nós sempre reclamamos em paz e jamais temos tampado a cara” (diario Clarín, 28-06-02). Logo aderiu à hipótese do oficialismo, abonando as versões sobre uma intenção insurrecional e criminalizando diretamente as agrupações identificadas com ideologias de esquerda: “existe um setor da esquerda que desde alguns meses acredita ser o eleito para conduzir a revolução na Argentina e tem como objetivo derrubar Duhalde” (Clarín, 2-07-02); e “existe infiltração ideológica” (El Día, 1-07-02), remetendo ao grupo Quebracho. Este tipo de apreciações, também efetuadas nos episódios anteriores, aprofundaram a brecha existente entre os piqueteiros considerados “combativos” e as agrupações de D’Elía e Alderete. Suas interpretações foram registradas no documentário “La crisis causó 2 nuevas muertes” de Patricio Escobar e Damián Finvarb, que faz alusão ao titular do diário Clarín do dia 27 de junho. Ali expôs com maior eloquência sua caracterizão dos fatos ao considerar que os integrantes do Bloco Piqueteiro “combinaram com o governo de Duhalde uma repressão de baixa intensidade, ou seja ‘nós vamos ao bloqueio, vocês atiram alguns gases contra nós e nós vamos embora” Ao governo lhe serve porque pode demonstrar em Washington que tem autoridade para dissolver o conflito social, e aos dirigentes isso lhes servia porque lhes permite se colocarem no centro da cena política e dizer que era um governo repressor, autoritário, e que eles eram os verdadeiros piqueteiros. Era um negócio para ambos. Por quê? Porque necessitavam de mortos (ARTESE, 2013, p. 141).

Discursos criminalizadores semelhantes foram veiculados por outras empresas capitalistas de comunicação, oferecendo outra explicação ideologêmica, segundo a qual o massacre de avellaneda foi resultado de uma ação inssurreicional sistematicamente organizada para a derrubada do governo e tomada do poder, recorrendo novamente à figura de um dos inimigos imaginários inventados (o subversivo terrorista de esquerda) em períodos prévios da história argentina:

“As ações de Avellaneda não constituem um ato isolado senão resultado de ações elaboradas que constituem um plano de luta organizado e sistemático, que pode chegar a ameaçar e substituir a fórmula do consenso que a maioria dos argentinos tem escolhido. Tem quem prefere a linguagem da violência” (Jorge Matzkin, ministro do interior, La Nación, 27/06/2002).

“Nós já conhecíamos há 20 dias que ia acontecer alguma coisa com essa característica, porque sabíamos, por tudo que comentavam, que se organizavam no dia 22 e 23 no estádio Gatica em Domínico uma assembleia piqueteira em que se discutiria as ações a seguir, nessa assembleia se falou de luta armada, nessa assembleia se definiu o que eles chamam de plano de luta que não é outra coisa senão um cronograma de hostilidades” (Aníbal Fernandez, secretário geral da presidência, TV América, 26/06/2002).

“Por detrás dos grupos piqueteiros operam setores de ultraesquerda que buscam questionar a vigência da democracia. Esses setores estão interessados em convencer a gente que a democracia é incompatível com a justiça social e com uma política social alternativa (Carlos Vila, subsecretário da Segurnaça Interior, La Nación, 01/07/2002).

“Os dolorosos enfrentamentos que tem sido registrado nesses últimos dias como consequência dos distúrbios causados por grupos piqueteros – muito deles com rosto cobertos, como nos tristes tempos da subversão terroristas devem encontrar uma imediata resposta na consciência moral dos argentinos (…) tendente a modificar a raiz dos hábitos de violência que estão se instalando no campo do protesto social” (Bartolomé Mitre, diretor de La Nación, 28/06/2002).

“As mais altas fontes do governo asseguram que as primeiras averiguações das forças policiais e de inteligência apontam as agrupações piqueteiras Corrente Aníbal Verón e Movimento Teresa Rodríguez. E dentro dessas, estariam identificados ativistas vinculados com o representante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Javier Calderón, entre outros grupos revolucionários” (La Nación, 28/06/2002).

“Ontem o Governo de Duhalde pediu à justiça que investigue um suposto complô destinado a derrubar ‘os poderes constituídos’, ao apresentar os elementos de prova reunidos logos depois dos enfrentamentos que antes de ontem causaram duas mortes durante uma marcha piqueteira [...] O governo temeu na verdade que a violência se recrudecera depois que, antes de ontem, na Ponte Pueyrredón, na cidade de Avellaneda, se produziram dois mortos entre os piqueteiros, durante enfrentamentos com as forças de segurança” (La Nación, 28/06/2002).

A recorrência a inimigos imaginários é uma tendência concreta em períodos de radicalização da luta de classes, pois nesses períodos o bloco dominante deve reprimir o avanço radical da contestação social, pois do contrário não consegue garantir a reprodução das condições necessárias para a acumulação capitalista. Contudo, a repressão violenta não deve se apresentar nua e crua à sociedade, principalmente para evitar maiores adesões e apoio aos movimentos de contestação social, assim como evitar a transparência da realidade concreta da luta de classes, que é deslocada para uma guerra maniqueísta entre os que querem manter a ordem e os que querem criar desordem. E para isso servem os inimigos imaginários, isto é, para camuflar a brutal ofensiva de classe, apresentando-a como uma ofensiva legítima contra inimigos violentos e perigosos que atentam contra a sociedade e seus valores como um todo. Dessa maneira, os contestadores mais radicais são transformados pelo bloco dominante em diversos inimigos imaginários da sociedade e o papel do capital comunicacional é o de tornar tais discursos criminalizadores correntes de opinião predominantes na sociedade e capazes de criarem um consenso que legitime a brutalidade da violência de classes, travestida de repressão contra inimigos sociais (imaginários).

O crescente processo de criminalização dos movimentos de contestação piqueteira e dos seus métodos de lutas exprime a face penal contrainssurgente do estado neoliberal argentino e de sua determinação em tornar regular a dinâmica da acumulação integral na contemporaneidade. Para isso, ele precisa criminalizar o lumpemproletariado e diversas outras classes e frações de classes, assim como diversos grupos sociais, considerando-o uma classe social perigosa, porém travestida de inimigos imaginários, e seus movimentos de contestação da regularização neoliberal e suas perversas consequências, responsáveis por sua vida miserável à margem da divisão social do trabalho. Além disso, a emergência de lutas sociais com tendências cada vez maiores à radicalização pressiona o estado e obstaculiza cada vez mais o processo de acumulação. Na contemporaneidade, o processo de lumpemproletarização se apresenta como uma alavanca da acumulação, mas também da contestação social radical.

Referências Bibliográficas:

ALAVÍO, Grupo (2002). Crónicas de libertad [organizando la resistencia] – jornada del 26 de junio de 2002 en el Puente Pueyrredon. Buenos Aires, 2002. 1 dvd de vídeo (47 min.).

ARTESE, Matías (2009). La construcción de representaciones sociales en torno protesta social y a la represión institucional. Seis estudios de caso entre los años 1996 y 2002. 2009. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade de Buenos Aires, Buenos Aires, 2009. 355 p.

____ (2013). Cortes de ruta y represión – la justificación ideológica de la violencia política entre 1996-2002 . Buenos Aires: Eudeba.

BRAGA, Lisandro (2016). Repressão estatal e capital comunicacional – o bloco dominante e a criminalização do movimento piqueteiro na Argentina. 2016. Tese (doutorado em Sociologia) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2016, 310 p.

COTARELO, María Célia (2005). Aproximación al análisis de los sujetos emergentes en la crisis de 2001-2002 en Argentina. Publicación del Programa de Investigación sobre el Movimiento de la Sociedad Argentina – PIMSA, número 56.

ESCOBAR, Patrício e FINVARB, Damián (2007). La crisis causó 2 nuevas muertes – los médios de comunicación em la Massacre de Avellaneda. Buenos Aires, 2007. 1 dvd de vídeo (85 min.).

MTD, ANÍBAL VERÓN (2012). Darío y Maxi – dignidad piquetera. Buenos Aires: El colectivo.

RED, Eco alternativo (2009). Discurso mediático e criminalización de la protesta. Em: KOROL, Claudia. Criminalización de la pobreza y de la protesta social. Buenos Aires: Editorial el colectivo; America libre.

VARESI, Gastón Ángel (2012). Hegemonía y acumulación en el gobierno de Duhalde (2002-2003). V Jornadas de Sociologia da Universidade Nacional de La Plata, 5 a 7 de dezembro de 2012.

VIANA, Nildo (2015). Blocos sociais e luta de classes. Revista Enfrentamento. Ano 10, número 17, jan./jul.










[1] Doutor em Sociologia/UFG, professor de Teoria Política e Argentina Contemporânea/UFMS e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas América Latina Contemporânea/NEPALM.


[2] A Lei de Convertibilidade 23.928/91, sancionada pelo Congresso em 27/03/1991, declarou a conversão da moeda (01 peso por 01 dólar) a partir de 01/04/1991, estabelecendo a obrigatoriedade do BCRA vender a quantidade de dólar que lhe fosse requerido de acordo com essa paridade (01 por 01 ) e manter suas reservas disponíveis em ouro e em divisas estrangeiras em um montante equivalente a não menos de 100% da base monetária, que era definida de maneira padrão como a soma da moeda circulante mais os depósitos à vista das entidades financeiras no Banco Central e diversas outras cláusulas. Dessa maneira, o BCRA tornou-se uma espécie de currency board (caixa de conversão64) suis generis, responsável por garantir a convertibilidade.


[3] “Em nossa análise, o lumpemproletariado é composto por todos aqueles que se encontram marginalizados da divisão social do trabalho e todo trabalhador (em potencial) compõe essa classe “durante todo o tempo em que está desocupado parcial ou inteiramente”: desempregados temporários, subempregados, mendigos, sem-teto, trabalhadores precários em condições de grande instabilidade e irregular (desemprego disfarçado) etc.” (BRAGA, 2016, p. 124).


[4] “Em resumo, a gênese do movimento piqueteiro não se relaciona com um único processo. O movimento piqueteiro não é o produto exclusivo dos piquetes e puebladas que sacudiram as distantes províncias argentinas nos último anos, porém tampouco brotou naturalmente dos assentamentos originados nos anos 80 na província de Buenos Aires. É a convergência desses dois afluentes o que vai permitir a formação, expansão e ainda a posterior potencialização do movimento piqueteiro. A confluência entre, por um lado, ação disruptiva, dinâmica assembleiaria e identidade piqueteira, originária dos piquetes e puebladas do interior do país, e, por outro lado, os modelos de organização e militância territorial, desenvolvidos de maneira paradigmática em determinadas regiões, sobretudo em La Matanza e no eixo sul do conurbano bonaerense” (SVAMPA, 2010, p, 242).


[5] “O bloco dominante se constitui a partir de determinado regime de acumulação, ou, o que significa dizer o mesmo com outras palavras, uma certa forma cristalizada de luta de classes. Em cada regime de acumulação emerge uma estratégia de classe da burguesia que é duradoura e o bloco dominante, mesmo que mude seus representantes individuais, grupos, partidos, frações de classes, etc., ele segue a linha estratégica adotada. É por isso que mesmo partidos do bloco progressista, quando conquista o aparato governamental, reproduz as políticas impostas pela estratégia da classe dominante adequada a determinado regime de acumulação” (VIANA, 2015, p. 18-19).


[6] Trata-se de “uma força de operações policiais, organizada, instruída e equipada para responder rapidamente e eficientemente a uma ampla gama de requerimentos de serviços [...] garantir segurança às pessoas e bens em caso de sabotagem, atentados, distúrbios, ‘explosão’ de lutas sociais, contingências fortuitas ou provocadas [...] restabelecimento e manutenção da ordem pública, garantindo a liberdade de trabalho [...]” (Prefectura Naval Argentina – Autoridad Marítima. Em: http://www.prefecturanaval.gov.ar/web/es/html/inst_servicios9.php).


[7] Durante o calor emocional do eminente enfrentamento entre piqueteiros e forças repressivas, que armaram uma emboscada com atitudes provocativas, uma piqueteira cai na emboscada ao agarrar a jaqueta do comissário Franchiotti (responsável pela emboscada) e lhe dar um puxão. A partir desse momento inicia-se a repressão brutal, que toma forma de uma caçada violenta e assassina pelas ruas, estações, sedes de agrupamentos políticos de esquerda etc.


[8] “Ambos militavam em distintos MTD da zona sul do conurbano bonaerense, agrupados na Coordenadora Aníbal Verón, ainda que não se conhecessem mutuamente. Santillán tinha uma reconhecida militância no MTD de Almirante Brown e logo de Lanús, e trabalhava em uma “construtora” comunitária fazendo tijolos de cimento. Kosteki se incorporou na mesma organização dois meses antes dos fatos, estudava desenho e pintura e trabalhava em uma horta comunitária dependente do MTD de Guernica, município de Presidente Perón” (ARTESE, 2013, p. 139).


[9] Momento em que o cabo Acosta (13) e o comissário Franchiotti (14) ingressam na Estação Avellaneda, minutos antes do fuzilamento de Darío Santillán. No piso encontra-se Maximiliano Kosteki fuzilado e Darío Santillán levantando e buscando escapar dos policiais que o assassinaria segundos depois. Na última imagem (15), temos Darío Santillán já fuzilado, agonizando no pátio da Estação Avellaneda. Em destaque o cartucho vermelho, próprio de munição de fogo, utilizado para fuzilar Santillán a 05 metros de distância.


[10] Aqui me refiro a um total de 69 discursos veiculados pelos jornais Clarín, La Nación, Página 12 e El Día entre os dias 15/06/2002 e 03/08/2002. Desse total de 69, 54 discursos continha algum tipo de caracterização dos contestadores sociais e seus métodos de contestação, dos quais 31 (57,4%) foram pronunciados por algumas frações de classe da burocracia (governamental, estatal/partidária).